Dia após dia, o terço vai rodando na mão vezes sem conta, enquanto contamos as contas que o terço tem. Tal como o mundo que vai girando sem fim, assim é o nosso terço durante estes dias, enquanto que a Cruz, essa permanece de pé, sem vacilar. O terço é quase como uma extensão da Cruz onde cada um de nós, nas suas orações desempenha um papel de “Cirineu” em relação a Cristo. Não só aliviamos as Suas dores como especialmente as de todos nós/vós, meros pecadores.
A recitação do terço, quase ininterruptamente durante a caminhada, torna os quilómetros em metros, torna as passadas cansadas em passadas de descanso, torna visível o invisível.
A recitação do terço propicia assim uma atitude muito simples, que faz com que, ao mesmo tempo que pronunciamos com os lábios as Ave-Marias, o fundo do nosso coração fica unido ao Senhor. Deus chama-nos deste modo a rezar esta oração vocal mantendo o coração numa simples atenção amorosa para com Ele, em Jesus, com Maria.
Depois desta breve introdução das graças obtidas na oração, e ainda que a recitação do terço feita por nós seja um pouco diferente, essa diferenciação apenas se prende na tradicional “Avé-Maria dos Romeiros” cantada num ritmo lento onde cada silaba tem um peso e o tom de voz é triste e melancolico, é o reflexo da viagem sacrificial que fazemos, é o reflexo do Calvário, da Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo. Esta Avé-Maria dolente, movida pela aflição e pela fé de cada um, dos seus, do mundo e dos pedidos que são feitos ao rancho, promove o reencontro entre todos os irmãos na sua expressão mais simples, a humildade. A oração promove, igualmente, o nosso/vosso reencontro com Deus. Oração muitas vezes sofrida, mas sentida. Muitas vezes chorada, mas cheia de esperança. Muitas vezes muda, mas cheia de fé. Recitamos o terço desta forma porque, como romeiros, existimos materialmente apenas na quaresma, exteriorizando a nossa fé, ainda que espiritualmente vivamos o resto do ano uma romaria mais interiorizada.
Termino dizendo que, como Romeiro que cada um de nós é (Cristão, mesmo o que aparentemente possa não crer), “vivemos no Sábado, o dia sem nome. Vivemos entre a Sexta-Feira Santa e o Domingo de Páscoa, vivemos entre a promessa e o cumprimento da mesma.”* assim, durante este Sábado (que me atrevo a chamar de Sábado da Esperança) de caminhada, sustentemos a alma com a recitação do Terço.
* Excerto retirado do livro de Philip Yancey “O Jesus que eu nunca conheci”



