sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Fazer bem o sinal da Cruz


“Se fazes o sinal da Cruz, fá-lo bem feito. Não seja um gesto acanhado e feito à pressa, cujo significado ninguém sabe interpretar. Mas uma autêntica cruz, lenta e ampla, da testa ao peito, dum ombro ao outro.

Sentes como ela te envolve todo?

Recolhe-te bem. Concentra neste sinal todos os teus pensamentos e todos os teus afectos, à medida que o vais traçando da testa ao peito e dum ombro ao outro. Sentilo-ás então a penetrar-te todo, corpo e alma. A apoderar-se de ti, a consagrar-te, a santificar-te. Porquê?

É o sinal do Todo, o sinal da Redenção. Nosso Senhor remiu todos os homens na cruz. Pela cruz santifica o homem todo até à última fibra do seu ser.

Por isso o fazemos antes da oração para que nos componha, recolha e fixe em Deus o nosso pensamento, coração e vontade. Depois da oração, para que nos fortaleça, No perigo, para que nos proteja. Ao benzermo-nos, para que a plenitude da vida divina penetre na alma e fecunde e consagre quanto nela há.

Pensa nisto sempre que fazes o sinal da cruz. É o sinal mais santo que exista. Fá-lo bem: devagar, rasgado, com atenção. Envolver-te-á assim todo o ser, corpo e alma, pensamentos e vontade, sentidos, potências e acções e tudo nele ficará fortalecido, assinalado pela virtude de Cristo, em nome de Deus uno e trino” (Romano Guardini).

terça-feira, 13 de outubro de 2009

“As romarias servem também para isso. Para nos rirmos de nós”


Artigo publicado no Jornal "A União" de 10 do corrente mês.


“Deus não nos ama apenas, Deus é louco por nós, ao ponto de nos levar a seguir o seu filho Jesus Cristo apaixonadamente, como crianças atrás de um sonho.”

Começo mais um artigo com este pensamento, também ele louco (muito possivelmente), após ter (re) lido um artigo que o irmão Tomáz Dentinho escreveu neste jornal no dia 22 de Fevereiro de 2007. Li-o porque, em termos de Rancho de Romeiros, é conveniente guardar todos os artigos publicados que falam sobre os mesmos, mais que não seja, para memória futura.
Ao (re) lê-lo, sorri um pouco (para não dizer que dei uma grande gargalhada) com duas frases que o irmão escreveu, a saber:
“O Hélder Ávila, que é chefe de escuteiros e que tem bons contactos com os Romeiros da Paróquia do Rosário na Lagoa, o Gonçalo Forjaz que já participou numa romaria pelo rancho de São José, e eu, que também andei pelos maravilhosos caminhos de São Miguel guiado pelo rancho de São Pedro.” e “Haverá quatro reuniões até partirmos e todas elas são importantes para que tudo corra bem.”.
Na verdade, dei uma valente gargalhada, não por gozo, escárnio ou mal dizer (e que me perdoe o irmão Tomáz se o ofendo com esta observação), mas sim porque, só mesmo Deus para ser louco o bastante, ao ponto de ter conseguido levar um punhado de homens a palmilhar os caminhos desta ilha (de Jesus, por sinal), após uma mão cheia de reuniões preparatórias e pouco mais e (a bem da verdade) com a pouca experiência desses 3 grandes irmãos em comunhão com os restantes que na altura terão sentido o chamamento Divino.
Como crianças atrás de um sonho, apesar de todas as adversidades, as explicações científicas “bem fundamentadas” e outras tolices mais ou menos tolas (passo a redundância), foi (e será sempre) “a Fé permite reconhecer que Alguém nos ama e entender a sensações de dor e de alegria; a Fé dá-nos a sensação de que esse Alguém nos dá em abundância criando-nos a disposição para agradecer essa dádiva; a Fé dá a força para aderir a Cristo e romper com aquilo que nos escraviza; a Fé gera santos que fizeram e fazem bem a muita gente; a Fé, finalmente, dá força a esses santos para que saltem para o absoluto que é Deus.” – Palavras do irmão Tomaz no seu artigo de 23 de Abril de 2007.
Só mesmo Deus infinitamente Pai por amor a todos nós seus filhos para, “após um calvário lá para os lados” da Agualva na 1ª romaria onde, no meio de algures numa noite escura, termos completado mais um dia no qual, apesar da “fé ter sido leve”*, sairmos com a fé reforçada e cheios desse amor de Pai.
Só mesmo Deus, na sua eterna justiça divina ter escolhido estes Homens para fazer ressurgir este movimento da sua Igreja nesta ilha quando podia ter escolhido outros. Mais uma vez Deus, tal como fez com o seu filho, escolheu pessoas simples e quase incógnitas do meio da sociedade para este ressurgimento, quando podia ter escolhido outras pessoas, mais conhecidas ou com estatuto, por exemplo.
Como crianças atrás de um sonho, e ao ritmo do tempo de Deus que não é igual ao nosso, estes irmãos, aos poucos vão trazendo outros tantos, não para segui-los mas sim para segui-Lo.
Deus não nos ama apenas, Deus é louco por nós, ao ponto de ter aberto a mão e deixado o seu filho Jesus Cristo morrer na cruz por todos nós. No entanto, essa morte, citando Walter Wink num livro que não sei precisar o nome disse “Matar Jesus foi como tentar destruir um dente-de-leão assoprando-o”.
Termino com mais uma passagem fabulosa do irmão Tomáz no seu artigo de 23 de Abril de 2007.
“Finalmente é fundamental rirmo-nos de nós próprios. Reconhecer a estupidez que esteve por detrás de muitas zangas. Admitir a cobardia que alimentou muitos orgulhos. Relativizar medos e explicitar mentiras. Ao fim e ao cabo fazer silêncio para nos vermos de fora. As romarias servem também para isso. Para nos rirmos de nós.”


* - Adaptação de uma afirmação proferida pelo irmão Pires Borges no tempo, curta, clara e concisa mas sem duvida alguma mais profunda que esta minha longa opinião.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

O “Ano Quaresmal” do Romeiro

Artigo publicado no Jornal "A União" no passado Sábado.
“A Vida não faria sentido, se não houvesse a morte desta para o nascimento da outra (a Eterna), através da Ressurreição.”

É com este meu “devaneio” que começo mais um pequeno artigo de opinião. (*)

Existem várias designações de Ano. Temos o ano bissexto, o ano lectivo, o ano civil ou o ano litúrgico entre outros.
Para nós, Romeiros que damos a cara, o corpo e sobretudo a alma por Cristo e Sua Mãe Maria Santíssima no Rancho, pautamos a nossa vida pelo que poderá designar-se como “Ano Quaresmal”.
Cristãos como somos, os 40 dias (como nos recorda a Igreja e aprendemos na Catequese), servem de preparação para a grande Festa da Páscoa, o acontecimento mais importante do ano cristão e da nossa fé. No entanto, esta preparação deve acontecer, antes de tudo mais, no nosso interior, no nosso coração, na conversão pessoal e comunitária, sendo que, é dentro de nós (e não fora!) que tudo se decide na nossa vida.
Mas que significado tem para todos nós a Quaresma?
A Quaresma não é apenas para cumprir calendário, nem tão pouco para se fazer tempo até chegar o Domingo de Páscoa, para então beijar a cruz, ter um repasto de arromba e de seguida uns sais de fruto.
Para que a Quaresma faça sentido, devemos sentir-nos pequeninos e com necessidade de Deus. A Quaresma é sobretudo para quem se sente pecador (e quem não o é?), ou seja, frágil e pequeno diante de Deus, porque a Quaresma é um tempo de olhar para nós mesmos, para a vida (a nossa vida), para aquilo que só nós e Deus sabemos (e Deus conhece-nos melhor do que nós próprios) e juntos (eu e Deus) procurámos um caminho de arrependimento, de perdão e de graça.
No entanto, na sociedade em que vivemos, onde quase tudo já não é considerado pecado, então a Quaresma, na verdade, não faz sentido nem tem lugar e apenas serve (como disse mais acima), para cumprir calendário.
A Quaresma, no entanto, como proposta de conversão é que faz todo o sentido e toda a lógica. Cada quaresma é única, nova, renovadora e não existem duas iguais. Ainda que a parte visível da nossa Quaresma (como romeiros) sejam apenas e tão só 5 dias, os outros 35 não são esquecidos ou postos de parte. É nesta particularidade, que quando terminamos este singular retiro, que se desenrola, não entre quatro paredes, mas sim no meio do mundo que nos rodeia, e apesar de tentarmos diariamente agir como Cristãos (que somos) através de várias formas, sejam atitudes pessoais (nos pequenos gestos do dia a dia de renuncia e partilha) ou comunitárias (participando na eucaristia, na reconciliação ou outras) a verdade é que (como humanos que somos) durante o ano que decorre entre cada quaresma, algumas vezes (para não dizer muitas) começamos a fraquejar, tropeçar ou eventualmente cair.
É na singularidade da romaria que “recarregamos as baterias”, aproveitando o silêncio, a meditação, a oração, o estudo e a acção para os restantes dias do “Ano Quaresmal”.
Para terminar convido todos os leitores que queiram participar na próxima romaria a comparecerem no dia 21 de Outubro pelas 20:00 no edifício da Igreja de Nossa Senhora da Conceição, localizado na Rua do Cruzeiro para a reunião de Rancho.


(*) Artigo de opinião o qual, apesar de ser referente aos Romeiros no seu geral, não passa de um mero artigo de opinião pessoal, ou seja, é apenas um ponto de vista de um “irmão romeiro como os demais” e não uma opinião do Rancho de Romeiros.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Reuniões preparatórias para a Romaria de 2010


As reuniões acima mencionadas decorrerão no edificio de catequese da paroquia, sito na Rua do Cruzeiro, com inicio pelas 20:00.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Reunião de Romeiros

Informam-se todos os irmãos e eventuais interessados de que o Rancho de Romeiros irá recomeçar as suas reuniões preparatórias para a saída na Quaresma no ano de 2010, no próximo dia 23 do corrente, no edificio da Igreja da Conceição sito na Rua do Cruzeiro.
Qua

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

O silêncio na caminhada do Romeiro

Artigo publicado hoje no Jornal "A União"

“O silêncio tem duas faces. Tanto pode ser ensurdecedor ao ponto de romper os tímpanos, como pode ser sublime ao ponto de elevar a alma a Deus.”
É com este meu pensamento modesto (já que sem o apoio do Espírito Santo, nada consigo escrever), que hoje gostaria de vos falar sobre o silêncio que é praticado na caminhada de uma Romaria.

Vivemos num mundo cheio de sons, os quais em vez de se unirem harmoniosamente, se dessincronizam criando não música mas barulho.
Vivemos numa era onde aparentemente há horror ao silêncio, como tal não podemos, nem nos deixam, apreciar a beleza do silêncio. O silêncio não é apenas a ausência de sons ou ruído, o silêncio, acima de tudo, é algo que temos de construir dentro de nós.
Neste mundo onde reina o barulho incómodo, os ruídos estridentes, ou os sons inoportunos, é salutar à mente e á alma criar-se tempo e espaço, onde o silêncio seja Rei e Senhor, onde sintamos ao de leve os “escutos” de Nossa Senhora, os segredos de Jesus Cristo e os sussurros de Deus, pois é no silêncio que Ele nos fala e se nos revela (Cf. 1Rs 19,11-13).
Nós (meros pecadores), durante a romaria e para além da recitação do terço em voz audível, melancólica mas melodiosa, também temos uma quota-parte desse silêncio benéfico e salutar. Também tiramos tempo ao tempo e damos espaço ao espaço para exercitarmos o dom que provem do silêncio, tão importante quanto a prática da palavra.
Como citei mais acima, é no silêncio orante das nossas vidas que Deus se revela e nos fala. Ele quer dialogar connosco como nós queremos dialogar com os nossos amigos, mas se não temos tempo para conversar com Ele, para ouvi-lO, será justo da nossa parte querermos que Ele nos ouça?
Se desejamos ardentemente o dialogo com Ele (e até muitas vezes prometemos fazer isto ou aquilo, como se de uma troca de favores se tratasse), porque será que na maioria das vezes apenas queremos um monólogo a dois?
Poderemos dizer (a nós mesmos) que o excesso de tarefas diárias leva-nos a isso, mas essas desculpas também podem ser uma fuga para não dialogarmos com Ele e connosco mesmos. Engraçado que encontramos sempre tempo para tudo, menos para Deus.Atrevo-me a dizer (e contra mim falo) que, se calhar muitos de nós, durante 365 dias, apenas tiramos 5 dias para dialogarmos com Ele, num diálogo aberto e franco. No entanto, tal como uma pedra que é lançada á agua, são criadas “ondas de propagação” dentro de nós, dentro das nossas almas, que nos levam a desejar durante os restantes 360 dias, tirarmos tempo ao tempo e darmos espaço ao espaço, para novamente dialogarmos com Ele. Talvez seja esse bichinho (benéfico) que nos vai corroendo por dentro, que leva muitos de nós, ano após ano a voltar, a deixar tudo para trás para, nesses momentos de oração e silêncio entre irmãos, podermos de uma forma, “talvez” mais Cristã, voltar ao Pai por breves segundos (da eternidade Divina) e alimentarmo-nos do preciosíssimo corpo e sangue de Jesus Cristo. Cristo que é o verdadeiro modelo dos cristãos na atitude de silêncio orante (Cf. Mt 14,23; Mc 1,35; Lc 9,18; Jo 6,15). Ele que veio para manifestar o mistério da salvação de Deus, “envolvido em silêncio” nos séculos eternos (Cf. Rm 16,25). Que todas as comunidades aprendam, pois, de novo a ser silenciosas e voltem a percorrer o caminho de Cristo, na intimidade mais profunda com o Pai e na plenitude mais viva do Espírito Santo.
Termino esta já longa “divagação” convidando todos os homens de Fé e Esperança a participarem na próxima romaria, para viverem este e outros mistérios de Deus Nosso Senhor.

“O silêncio é oração...”

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

A recitação do terço do rosário num Rancho de Romeiros



Artigo publicado no jornal "A União" no passado Sábado dia 1 de Agosto.


“Durante os longos dias de caminhada, a nossa alma sustenta-se no poder da recitação do terço”.

Esta minha pequena afirmação, ainda que possa parecer para a maioria das pessoas, uma frase feita ou uma frase pomposa cheia de folhos mas vazia de conteúdo ou significado, está completamente enganada. Não que nós sejamos diferentes, nada disso, mas todos aqueles que, em romaria, peregrinação ou no dia a dia recitam o terço, sentem precisamente o mesmo.

Dia após dia, o terço vai rodando na mão vezes sem conta, enquanto contamos as contas que o terço tem. Tal como o mundo que vai girando sem fim, assim é o nosso terço durante estes dias, enquanto que a Cruz, essa permanece de pé, sem vacilar. O terço é quase como uma extensão da Cruz onde cada um de nós, nas suas orações desempenha um papel de “Cirineu” em relação a Cristo. Não só aliviamos as Suas dores como especialmente as de todos nós/vós, meros pecadores.
A recitação do terço, quase ininterruptamente durante a caminhada, torna os quilómetros em metros, torna as passadas cansadas em passadas de descanso, torna visível o invisível.
A recitação do terço propicia assim uma atitude muito simples, que faz com que, ao mesmo tempo que pronunciamos com os lábios as Ave-Marias, o fundo do nosso coração fica unido ao Senhor. Deus chama-nos deste modo a rezar esta oração vocal mantendo o coração numa simples atenção amorosa para com Ele, em Jesus, com Maria.
Depois desta breve introdução das graças obtidas na oração, e ainda que a recitação do terço feita por nós seja um pouco diferente, essa diferenciação apenas se prende na tradicional “Avé-Maria dos Romeiros” cantada num ritmo lento onde cada silaba tem um peso e o tom de voz é triste e melancolico, é o reflexo da viagem sacrificial que fazemos, é o reflexo do Calvário, da Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo. Esta Avé-Maria dolente, movida pela aflição e pela fé de cada um, dos seus, do mundo e dos pedidos que são feitos ao rancho, promove o reencontro entre todos os irmãos na sua expressão mais simples, a humildade. A oração promove, igualmente, o nosso/vosso reencontro com Deus. Oração muitas vezes sofrida, mas sentida. Muitas vezes chorada, mas cheia de esperança. Muitas vezes muda, mas cheia de fé. Recitamos o terço desta forma porque, como romeiros, existimos materialmente apenas na quaresma, exteriorizando a nossa fé, ainda que espiritualmente vivamos o resto do ano uma romaria mais interiorizada.
Termino dizendo que, como Romeiro que cada um de nós é (Cristão, mesmo o que aparentemente possa não crer), “vivemos no Sábado, o dia sem nome. Vivemos entre a Sexta-Feira Santa e o Domingo de Páscoa, vivemos entre a promessa e o cumprimento da mesma.”* assim, durante este Sábado (que me atrevo a chamar de Sábado da Esperança) de caminhada, sustentemos a alma com a recitação do Terço.


* Excerto retirado do livro de Philip Yancey “O Jesus que eu nunca conheci”