sexta-feira, 16 de abril de 2010

Missa nova do Padre André foi momento de profunda fé

Com alguma humildade da nossa parte, mais um nosso irmão Romeiro que connosco caminhou quando ainda era Diácono (com as incertezas próprias do ser humano) e hoje já é Sacerdote.
Este artigo que abaixo transcrevemos foi publicado no Jornal Correio dos Açores, no dia 22 de Dezembro de 2009.

"A Missa Nova do padre André Resendes encheu domingo a igreja de Nossa Senhora dos Anjos e o adro do templo, na Fajã de Baixo. Viam-se muitas lágrimas nos olhos e no rosto dos fiéis que presenciaram uma celebração litúrgica que mobilizou o clero da ilha de São Miguel. Padre André Resendes Graça, de 25 anos de idade, foi ordenado de Presbítero no sábado pelo Bispo de Angra e Ilhas dos Açores, D. António Sousa Braga e a sua Missa Nova de domingo encantou os crentes que acorreram à igreja da Fajã de Baixo, terra que o viu crescer ao lado de sua madrinha do Baptismo, Maria dos Anjos Resendes. Entre os padres que se encontravam na homilia, encontravam-se os seus principais tutores, o padre João Maria Brum, pároco de São Pedro; e o padre Victor Vicente, pároco da Fajã de Baixo. E também estavam três dos quatro jovens padres, do seu curso, todos ordenados este ano. São eles os padres Hélio Soares, João da Ponte, Ruben Medeiros e Marcos Miranda. Nascido em São José de Ponta Delgada, padre André é filho de António Graça de Jesus e de Maria de Jesus Rego Resendes. A ordenação sacerdotal foi organizada ao pormenor, envolvendo alguns grupos de trabalho ligados a uma igreja que, enquanto templo e organização religiosa, tem uma forte relação com a sociedade local. Já passavam das 14h30 quando padre André saiu, debaixo de algum chuvisco, de casa de sua madrinha Maria dos Anjos em direcção à igreja por cima de um tapete de flores e aparas de várias cores. Incorporados no cortejo estavam alguns padres, diáconos, familiares e amigos que marcaram a vida do novo padre. Ao longo do percurso o chuvisco parou e o sol raiou. Quando padre André chegou, a igreja de Nossa Senhora dos Anjos já estava repleta de fiéis. Um forte aplauso assinalou a sua entrada no templo onde tudo estava previsto. Um ambiente de festa caloroso recebeu a homilia do jovem padre que, no sermão, sublinhou a relação de cada qual com Jesus Cristo. Fez várias referências à fé, deixou um sentido de esperança e exortou os cristãos a afirmarem-se na sociedade onde estão inseridos. Falou de uma forma simples e emotiva que tocou os crentes presentes, alguns dos quais assumiam com orgulho as lágrimas que lhes corriam pelo rosto. E nos olhos de padre Victor, onde André encontrou sempre um amigo, havia um forte brilho nos olhos. Fez, na realidade, todo o sentido quando o jovem padre pediu um aplauso para o padre Victor enquanto seu tutor, enquanto o pároco da Fajã de Baixo, com um semblante humildade, estendia a mão em direcção a André dizendo por gestos que era ele, sim, quem, naquela hora, merecia. Foi o maior aplauso de uma Missa Nova abrilhantada com classe pelo coro da Fajã de Baixo. O Sagrado Sacramento da Eucaristia foi o momento alto da homilia e à comunhão estiveram todos os presentes. Foi notória, então, uma forma mais viva de fazer igreja com a primeira hóstia de padre André a ser entregue a sua madrinha Maria dos Anjos. Ao repórter, entretanto, não escapa a forma como padre Victor dava comunhão aos acólitos, alguns ainda crianças, da paróquia. Dava-lhes a hóstia na mão e eram elas que a molhavam na água que se encontrava dentro de um cálice antes de comungarem. Movimentos feitos com uma sobriedade e fé espantosas. Uma missa em que Padre André agradeceu a todos os que se envolveram na sua ordenação e contribuíram para que tudo estivesse previsto. No final da Missa Nova, padre André reuniu num jantar a comunidade sacerdotal que assistiu à sua ordenação e Missa Nova, acólitos, familiares e amigos, incluindo as suas catequistas. Foi uma confraternização em ambiente familiar onde o jovem conviveu com cada uma das famílias presentes, manifestando-lhes agradecimento pelo homem que é hoje. E até um dos romeiros presentes fez questão em sublinhar a sua costela de peregrino entoando um cântico das romarias quaresmais micaelenses, no que foi seguido pelos irmãos presentes. O grupo de quatro dos cinco jovens padres cantaram, ao longo do jantar, algumas canções religiosas animando o serão de uma comunidade cristã onde Berta Cabral (presidente da câmara de Ponta Delgada) estava inserida como membro de pleno direito. Tudo era simbólico no bolo de festa: O altar, a pomba branca, cada uma das flores e as suas cores. As quatro tulipas brancas correspondiam aos outros quatro jovens padres do seu curso ordenados sacerdotes este ano. Um bolo de ordenação sacerdotal que ficará na memória das pessoas mais próximas de padre André que seguiram, ao pormenor, a explicação sobre a simbologia de cada peça. Este foi também o momento para o jovem padre pedir o parabéns a você para dois jovens que fizeram anos no dia da sua Missa Nova, a Maria e o António Mendeiros Lopes. Foi, assim, num ambiente festivo, que a confraternização foi chegando ao fim, com o padre André a distribuir a cada família uma recordação da sua ordenação. Um jantar confeccionado e organizado por Paulo Mota muito elogiado pelos presentes.
Autor: João Paz"


quarta-feira, 14 de abril de 2010

Os "sinais" em Romaria

(peça exposta na loja Sapateia)

"Desde a morte e Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo, que todos nós (meros Homens e Cristãos) por vezes caímos na tentação de querer ver sinais da presença efectiva de Deus nas nossas vidas. Apesar de tudo o que dizemos, escrevemos ou professamos, são muitas as vezes e situações que assim pensamos e agimos. Não nos basta o que Ele transmitiu aos seus discípulos e seguidores, não nos basta o que ficou escrito “Felizes os que acreditam sem terem visto” e ainda hoje, por vezes, continua a não bastar… infelizmente. Ainda hoje queremos ouvi-Lo “com numerosos «milagres, prodígios e sinais» (Act 2, 22)”.
Deus está constantemente a dar-nos sinais, mas nós, muitas vezes, procuramos sempre do lado do extraordinário e raramente Deus está no extraordinário. Deus está, isso sim, frequentemente no simples e na simplicidade da vida. Para mim, o maior sinal que Ele nos oferece é o de uma família humana, como as nossas, em que Ele se faz corpo para ser «Deus connosco».
Conta-se que um velho árabe, analfabeto, orava com tanto fervor e carinho, cada noite, que certa vez, o rico chefe da grande caravana, chamou-o à sua presença e lhe perguntou: “Por que rezas com tanta fé? Como sabes que Deus existe, se nem ao menos sabes ler?”. O crente respondeu: “Grande senhor, conheço a existência de Nosso Pai Celeste pelos sinais dele”. “Como assim?”, indagou o chefe, admirado. O servo humilde explicou-se: “Quando o senhor recebe uma carta de pessoa ausente, como reconhece quem a escreveu?”. “Pela letra”. “Quando o senhor recebe uma jóia, como é que se informa quanto ao autor dela?”. “Pela marca do ourives”. O empregado sorriu e acrescentou: “Quando ouve passos de animais, ao redor da tenda, como sabe, depois se foi um carneiro, um cavalo ou um boi?”. “Pelos rastros”, respondeu o chefe, surpreendido. Então, o velho crente convidou-o para fora da tenda e mostrando-lhe o céu, onde a lua brilhava cercada por multidões de estrelas exclamou, respeitoso: “Senhor, aqueles sinais, lá em cima, não podem ser dos homens…muito menos de algum cavalo ou algum boi…logo são de Deus!”. Nesse momento, o rico chefe, ajoelhou-se na areia e começou a rezar também.
Deus, mesmo sendo invisível ao olhar humano, deixa-nos sinais em todos os lugares. Na manhã que nasce calma com o chilrear dos pássaros, no dia que transcorre com o calor do sol que nos aquece ou com a chuva que cai e sacia a terra e o verde das pastagens. Ele também deixa sinais, quando alguém se lembra de ti, quando alguém te considera importante ou te visita numa hora de sofrimento.
Deus está em todo o lado mas, na maioria das vezes está naqueles locais, naquelas pessoas ou naquelas situações em que pensamos que nunca estaria.
Também em romaria não somos muito diferentes e muitos de nós (começando por mim algumas vezes), tendemos a querer ver sinais aqui, ali ou acolá, quando esses mesmos sinais não estão ao nosso redor, não estão fora de nós, mas sim estão “simplesmente” dentro de nós, dentro dos nossos corações.
No 4º dia de romaria, um dia por excelência em que o silêncio com Deus reina sobre todas as coisas e especialmente no “meio do nada”, onde temos tudo em abundância, este ano deparei-me com uma “certeza” (incerteza por certo já neste preciso momento) sobre estes sinais. A meu ver existem três tipos de sinais. O 1º tipo são aqueles que vemos mais frequentemente em romaria, vulgarmente chamados de trânsito. O 2º tipo são aqueles que denomino de “seguidores de Tomé”, os quais, ao verem um pequeno nevoeiro a cobrir tudo e todos, já imaginam a transfiguração de Cristo Nosso Senhor assim como a aparição de Moisés e Elias, e o 3º e último tipo de sinais (os autênticos) são aqueles que apenas vemos com os olhos da alma, são aqueles que apenas sentimos nas entranhas do espírito, são aqueles que, não havendo nada de extraordinário ao nosso redor, Deus está connosco e nós com Ele."

Artigo publicado no Jornal "A União" de hoje.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

O 4º Dia da Romaria

Imagem publica retirada daqui


"São João da Cruz insigne Santo de grande misticismo afirmou em certa ocasião o seguinte:



“Fecha os olhos e verás
Faz silêncio e escutarás”




"A mente é uma massa confusa em que é difícil distinguir o que é pensamento do que é emoção, tudo está misturado: Recordações, imagens, projectos, pressentimentos, ressentimentos, pensamentos, critérios, aspirações, obsessões, ansiedades, etc., tudo está numa confusa mistura. Nesse mar turbulento e agitado é difícil “estar” com o Senhor.
Em boa hora se incluiu mais um dia à nossa Romaria indo para o interior da Ilha.
Assim no silêncio e equilíbrio da paisagem campestre podemos na fé e no amor “estar” com o Senhor Deus.
Bem haja o nosso Irmão Mestre que de tal se lembrou e pôs em prática.

Participamos na Romaria porque não podemos viver sem Deus e a Romaria é uma busca com os Irmãos do rosto do Senhor que cada um a seu modo o faz.
Também nos impulsiona aquele ardente anseio, inúmeras vezes expresso pelos homens de todos os tempos de Deus e que se manifesta com aquele grito “Mostra-me o Teu Rosto”. Rosto de Deus é uma expressão Bíblica que significa a presença viva do Senhor e, essa presença faz-se mais palpável, na fé e no amor quando a intimidade se torna mais profunda e intensa e nada mais adequado que o 4 dia.

O Mestre dos mestres, Jesus disse: “entra em teu quarto” . Entrar num quarto é tarefa fácil, porém que fazemos se o mundo turbulento e agitado vem connosco? Esse quarto de que fala Jesus é preciso entendê-lo em sentido figurado; é aquela última solidão do ser.
Diz Jesus ainda “fecha as portas e as janelas”. Fechar estas portas e aquelas janelas é tarefa fácil, porém o que fazer com todas as inquietações que nos apoquentam e acompanham no dia-a-dia, nada melhor que o 4 dia para serenar a mente e encontrar paz no coração.
Acho que a maioria dos Irmãos não chega a experiências profundas com Deus por não estar aberto a um trabalho de despojamento que se encontra no silêncio daquele dia.
Mas o Senhor que é paciente e compassivo dá-nos mais uma oportunidade para o próximo ano na V Romaria."
Artigo escrito pelo irmão João Dinis

Tomé e outros seguidores

"Está na moda, em certos meios sociais, sobretudo, em algumas ditas “elites”, não sei de quê, afirmarem-se como agnósticas ou ateias. É um fenómeno transversal, muitas vezes ligado a correntes de pensamento, que no século passado e, ainda hoje oprimiram milhões de pessoas, atirando-as para os campos de concentração, “goulagues” ou “cortinas de bambu”.
Numa globalização, onde imperam interesses de grupos económicos de um liberalismo selvagem, feito “bezerro de ouro”, até de sistemas políticos e sociais, como os novos impérios emergentes, sobretudo da Ásia, tudo é possível, menos a autêntica liberdade religiosa, onde os fiéis possam exprimir a sua fé.
Nem falamos, propriamente, dos chamados “cristãos de São Tomé”, que a Epopeia dos portugueses encontrou na Índia das Especiarias. Hoje, também eles a braços com fanatismos, que os perseguem em certos estados daquela, que alguns designam como a maior democracia do mundo, apesar das suas milhentas castas.
Evidentemente, que São Tomé precedeu os que hoje se afirmam de descrentes, à espera de apalparem provas materiais, como se tudo pudesse ser visto ao microscópio ou ao telescópio: “ Se não vir a marca dos pregos nas mãos de Jesus, se não colocar o meu dedo na marca dos pregos e se não meter a mão no Seu lado, não acreditarei”.
Muitas vezes cegos, pela novidade, pelo sucesso ou, por uma outra qualquer presunção, perfilam-se os candidatos a serem incensados, à boa maneira dos “imperadores–deuses”
do Império Romano, que fizeram milhares de mártires da Fé, entre os discípulos de Cristo, nomeadamente os Apóstolos Pedro e Paulo, a quem continuam a crucificar em nossos dias.
Até que “uma semana depois, os discípulos estavam reunidos. Desta vez, Tomé estava com eles. Estando fechadas as portas, Jesus entrou. Ficou no meio deles e disse: «A paz esteja convosco». Depois disse a Tomé: «Chega aqui o teu dedo e vê as minhas mãos. Estende a tua mão e mete-a no Meu Lado. Não sejas incrédulo, mas crente». Tomé respondeu a Jesus: «Meu Senhor e meu Deus!». (Confira João 20, 24-29).
O orgulho de muitos, o “politicamente correcto”, leva a que muitos, mesmo que tenham descoberto as Chagas de Cristo, de cujo crucifixo, têm mais medo do que o diabo, não abram a boca e confessem o mesmo que Tomé: «Meu Senhor e meu Deus!».
Para os que passam por semelhante experiência, Jesus diz o mesmo: «Acreditaste porque viste. Felizes os que acreditam sem terem visto». É ocasião de te interrogares sobre a tua Fé. De que lado te colocas. Ou vais fugir como os Discípulos de Emaús?"
Artigo publicado no Jornal "A União" de ontem da autoria do Padre Dolores

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Porque será que há sacerdotes?

"Nesta série de textos tem-se procurado dar conta de que os “sacerdotes” de qualquer religião, correspondem a uma necessidade das consciências humanas. Isto em todas as religiões, que o são de facto. É que há movimentos de certa espiritualidade que não são religiões. Por exemplo o Confucionismo.
Esta exigência básica das consciências religiosas seria o suficiente para aparecerem sacerdotes da Igreja de Cristo, o que teria acontecido se eles os não tivesse instituído. Mas, como se tem dito, seria um sacerdócio muito diferente daquele que realmente existe, que foi instituído por Cristo. Aliás, a própria Igreja ter-se-ia formado, se Cristo a não tivesse fundado. Porém, como já foi dito, ela seria a igreja dos cristãos, e não a Igreja de Cristo. E o sacerdócio não seria o sacerdócio instituído por Ele. Seria semelhante a certos pastores protestantes.
Essa igreja até poderia estar dividida em muitas igrejas diferentes, sem serem Igreja “Uma”, como ela é. E seria parecida, com muitas igrejas protestantes que são praticamente diversas e separadas umas das outras. Ou seriam como milhentas seitas que por aí existem, totalmente separadas entre si. E procurando separar a Igreja de Cristo que é Una. Algumas delas tentam estabelecer uma possível unidade.
Para entendermos bem esta existência do sacerdócio na Igreja de Cristo, é importante tomarmos consciência de que ele a quis formar e a formou realmente. Assim era natural que Ele mesmo lhe desse o seu sacerdócio.
Vamos, pois, seguir os andamentos de Cristo nos Evangelhos. E vamos dar conta de que Ele foi preparando essa Igreja. E com ela o sacerdócio. Para tal, começou por reunir e orientar discípulos, e entre estes escolheu alguns a quem chamou Apóstolos, isto é, “Enviados”. Ensinou-os em particular e, a certa altura, encarregou-os de pregar e “reger”. Era a raiz do sacerdócio. Eles viriam a ser os primeiros sacerdotes. Tudo isto significa uma organização definida. Foi o que Ele fez.
Uma das expressões mais significativas encontra-se no Evangelho de S. Mateus, cap. 18 Vers. 16: “tudo o que ligardes na terra será ligado no céu e tudo o que desligardes na terra será desligado no céu”. Estas palavras vêm num contexto de autoridade; vers. 17: “se ele (o teu irmão), se recusar a ouvi-las (as testemunhas), comunica-o à Igreja”.
E, noutro lugar, Lucas, 10, 16, diz: “quem vos ouve a Mim é a Mim que ouve, quem vos despreza a Mim despreza”. E em S. João, 13. 20: “quem recebe aquele que eu enviar, é a mim que recebe”. Estão a aparecer as pessoas concretas para o sacerdócio.
Mas antes de fazer estas afirmações, Ele tinha falado a Pedro de maneira muito directa. Lê-se em S. Mateus, cap. 16. 18: “tu és Pedro e sobre esta pedra eu edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Dar-te-ei as chaves do reino dos céus, e tudo o que ligardes na terra será ligado no céu. E tudo o que desligardes na terra será desligado no céu”.
Mais, no Evangelho de S. João, cap. 10, Ele apresenta-se como Bom Pastor do seu rebanho. É uma imagem de profundo valor de unidade e orientação. No povo judeu o pastor e o rebanho constituíam uma autêntica “família”. Isto equivale a uma “igreja”. Isto é “povo reunido”.
Mas ele continuou, vers. 14: “Eu sou o Bom Pastor, conheço as minhas ovelhas, e as minhas ovelhas conhecem-me”; vers. 16: “ tenho ainda outras ovelhas que não são deste aprisco e também tenho que as conduzir”. “Ouvirão a minha voz, e haverá um só rebanho e um só pastor”. E, mais tarde vers. 27: “as minhas ovelhas ouvem a minha voz: eu conheço-as e elas seguem-me”.
Na sua maravilhosa fala na Última Ceia (vale a pena lê-la) no Ev. De S. João, cap. 17, vers. 18), “assim como tu me enviaste ao mundo, assim também eu os enviei ao mundo” … “não rogo somente por eles, mas também por todos aqueles que, pela sua palavra, hão-de acreditar em mim”. Estava aqui o encargo de pastorear.
Estas afirmações não foram feitas com referência exclusiva àquele grupo que andava com Ele. Na verdade, o seu projecto não tinha limites, pois era extenso a todos os homens. É que antes de subir ao céu, ele disse: “ide e ensinai todas as gentes batizando-as em nome do Pai, do Filho, e do Espírito Santo” (Mat. 28. 19.)
E ainda naquela mesma Ceia, ao instituir a Eucaristia, vieram as palavras mais abrangentes de todas: “sangue da Nova e Eterna Aliança derramado por vós e por todos … fazei isto em memória de mim”.
Foi mesmo a comunicação do poder sacerdotal no ambiente daquela que seria a sua Igreja. Mais, antes de subir ao céu, deu a Pedro o célebre encargo de ser pastor das suas ovelhas. A cena é dum alcance total. Por três vezes Ele mandou Pedro apascentar as suas ovelhas: S. João, cap. 21:
- vers. 15: apascenta os meus cordeiros…
- vers. 16: apascenta as minhas ovelhas …
- vers. 17: apascenta as minhas ovelhas …
Está constituído o rebanho para atravessar os tempos, como ovelhas de Cristo, apascentadas por Pedro e pelos outros Apóstolos a quem Ele as entregou. Para estas tarefas Ele enviou “pastores” com funções de mestres e de sacerdotes. É o que veremos."
Artigo publicado no Jornal "A União" de hoje da autoria de Caetano Tomaz

terça-feira, 6 de abril de 2010

Romeiros – Homens que caminham pelo Livro de Génesis

Peça exposta na loja "A Sapateia"
"Há alguns dias atrás num contexto que não vem aqui a respeito, o “nosso” Padre Dolores saiu-se com a afirmação que serve de base ao titulo, dizendo que “Os Romeiros são Homens que durante a quaresma vivem as passagens descritas no Livro de Génesis apenas caminhando.”
Realmente, muitas vezes tem destas saídas, em que pensamos que serão “apenas” mais umas frases bonitas e, no entanto, são frases ou pensamentos com uma profundidade tamanha que ficamos dias a fio a pensar nessas frases ou pensamentos, no seu contexto e na sua abrangência nas nossas vidas de Cristãos. Esta foi mais uma delas em que, mesmo para quem já anda em romarias há longos anos (e não me refiro a mim certamente ou algum dos meus irmãos ao longo destes quatro anos), fica fascinado ao dar-se conta que, na verdade, vive essas passagens simplesmente caminhado.
Qualquer que seja o rancho começa a sua caminhada diariamente nas “Trevas”, onde as formas são vazias de conteúdo, onde apenas conseguimos ver o irmão que caminha à frente. Aos poucos a “Luz” começa a despontar no horizonte, tal como Deus disse. Quando nos apercebemos deste milagre diário, damo-nos conta que a separação entre as Trevas e a Luz é muito ténue, tal como é muito ténue a separação entre o Mal e o Bem. O Mal, dependendo do estado de alma do Homem, muitas vezes faz-se passar pelo bem para assim enganá-lo e ludibriá-lo, mas o Bem, o verdadeiro e único Bem vem do Altíssimo e Ele, na maioria das vezes fala-nos no silêncio da Luz que nos ilumina através do Espírito Santo. Em romaria (mas não só) deixamo-Lo falar, seja na brisa que passa, na chuva que teima em não parar, nas aves que pairam no céu, nos campos cheios de vida, nos animais que se abeiram das paredes ou simplesmente no irmão que ao passar pelo rancho cantando a Ave-maria, algo maravilhoso lhe acontece ao ver a Cruz que segue à frente. Tira-Lhe o chapéu que cobre a cabeça e, mesmo que pequenas gotas de orvalho matinal lhe molhem a cabeça, apercebe-se que, tal como todos nós, só terá a derradeira recompensa através d`Ele, que deu a vida por nós. Só Ele é que nos salva, Aquele que segue à nossa frente, Aquele que seguimos.
Depois, vemos tudo aquilo que Ele criou, a terra e o céu, as arvores e os campos, as plantas e suas sementes e por fim os animais. Como é belo vermos estas maravilhas com outros olhos, com outro olhar, que não o do dia-a-dia da vida.
Por fim, do pó da terra que Ele nos soprou nas narinas, cruzamo-nos com o fôlego da vida. Cruzamo-nos com os nossos semelhantes, muitos deles atarefados nas suas labutas diárias, quais “Martas”, mas também, aqui e ali, cruzamo-nos com aqueles semelhantes que rezam e oram, quais “Marias”.
Poderia explanar mais passagens do Livro de Génesis que se enquadram com a vivência de uma romaria, no entanto, o “restante” Livro de Génesis (o género humano, o pecado, a redenção, a vida em família, a corrupção da sociedade, entre outros temas) é vivido, sentido e orado individualmente, através das contas do terço ou através das meditações, durante a caminhada.
Termino com uma passagem fabulosa (para frasear um irmão) do livro “Se tu soubesses o dom de Deus” “Ser apóstolo não consiste em fazer muitas coisas ou em resolver muitos problemas; talvez consista em poucas, talvez numa só: ser presença e testemunha de um Reino que é o de Jesus.”

Artigo publicado no Jornal "A União" de 5ª feira passada.