sexta-feira, 14 de maio de 2010

Papa Bento XVI e a nossa identidade

"Numa Europa, ao ritmo dos vulcões da Islândia, que antecederam a Revolução Francesa e parecem querer marcar de novo as mudanças de rumo do Velho Continente, o Papa Bento XVI, voou até à “Ocidental Praia Lusitana”, a incentivar Portugal a vencer as crises, suas e da Europa, num contexto de globalização.
Na mais longa das viagens, das cinco, que três Papas fizeram a este País, nestes quatro dias, a três pontos fulcrais na nossa Historia, passada e recente, são assinalados, pela presença do Sucessor de Pedro, em nossos dias, a refrescar-nos a memória da nossa própria identidade.
Ademais, Cavaco Silva, deu o tom, no discurso de boas vindas, ao lembrar que o reconhecimento de Portugal, como Estado, em 1179, pela bula Manifestis probatum, do Papa Alexandre III, ao Rei D. Afonso Henriques, que já tinha demonstrado capacidade de o ser, “pois ele lutara sem cessar «pela fé cristã» e se mostrara «apto para a direcção do povo».
A Visita começou em Lisboa, ponto de partida e chegada da Epopeia dos Descobrimentos, nas caravelas da Cruz de Cristo, a que não é alheio o rio Tejo, como cenário ideal para novas partidas. Por isso o Papa convidou-nos a ajudarmos “afirmar a matriz cristã na Europa à semelhança do que se fez durante os descobrimentos, quando Portugal foi um dos principais promotores da fé Católica no mundo”.
Fátima, como não podia deixar de ser, é “altar do mundo”, de que o próprio Papa se faz peregrino, nos dez anos da Beatificação dos pastorinhos Jacinta Marto, cujo centenário do nascimento se comemora, e de Francisco Marto.
A terceira parte do designado “segredo” de Fátima, não podia estar ausente de todo este contexto de sofrimento da Igreja e, sobretudo do Papa, não apenas do falecido João Paulo II, mas do futuro da Igreja, que importa viver-se com sentido de esperança e de renovada confiança.Porto, última etapa desta Visita papal, às raízes primeiras do nome que temos, do “portugalle”, do Norte, donde se partiu, para a Reconquista Cristã. Hoje, um País e uma Europa descuidada dos valores matriciais, precisa de equacionar a identidade que temos e somos e qual devemos transmitir às gerações vindouras."
Artigo publicado no Jornal "A União" de ontem da autoria do Padre Dolores

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Paz, não a do mundo

"Perante a instabilidade, que há muito não se via, assiste-se a um mal-estar global, onde o oportunismo de uns e o esbanjamento de outros, faz tremer as bolsas de valores, não apenas monetários, mas da própria dignidade humana e do convívio pacifico dos povos e nações.
Como se não bastasse toda esta turbulência dos mercados, a própria Natureza, incomodada com o mau uso que dela temos feito, está a sacudir-nos da letargia em que multidões imensas foram hipnotizadas por certa publicidade mediática.
E, tal como na Igreja primitiva, há dois mil anos, as relações, entre uns e outros não são nada boas, perante as imposições (Actos 15), já não dos circuncisos, mas dos magnatas da corrupção, que, esquecendo todos os outros, lhes querem impor condições nada abonatórias da dignidade de irmãos e de filhos de um mesmo Pai.
Talvez, por isso, o Tratado de Lisboa não menciona na tradicional trilogia, a “Fraternidade”, substituindo-a, pela palavra “Solidariedade”. Uma subtileza, que a quase todos os signatários nem se deram conta, mas cujos efeitos parecem estar à vista, perante uma Europa, que nem se aguenta com o vulcão da Islândia, nem o desmando da Grécia.
Por cá, sobretudo em São Miguel, afinam-se os últimos toques e retoques, para a Festa do Senhor Santo Cristo dos Milagres, cuja tradição de trezentos e dez anos se reaviva a cada tremor de terra e das gentes sofredoras.
Mais, ainda, com a desfaçatez de quem se apresenta, como “falso Messias” de um povo e dum país a quem os desertores da Fé e da Terra prometem o que não podem nem devem. Pois “as cantigas e o pão de padeira é que nos puseram desta maneira”!
Sem pão não há paz que nos valha. E sem o “Pão da Vida” (João 14) não há cristãos que se aguentem perante as trapalhadas do mundo, que arrogantemente se afasta do Criador e das Criaturas, com a sua pós -modernidade de fracturas, a fazer negaças à serpente do Éden.
Valha-nos o Paráclito, o Espírito Santo, que nos “ensinará” a enfrentar as novas situações do mundo em que vivemos e nos “recorde” a promessa de da paz: «Deixo-vos a Paz, dou-vos a minha paz. Não vo-la dou como a dá o mundo»."
Artigo publicado no Jornal "A União" de hoje da autoria do Padre Dolores

terça-feira, 4 de maio de 2010

O Lenço e a sua FORÇA

"A quadra Pascal passada, levou-me aos Estados Unidos da América do Norte mais precisamente ao Estado da Califórnia, em visita à família que lá se encontra desde 1972. Minha mãe, anciã de 80 anos de idade foi a razão que pesou mais nesta grande viagem para o outro lado do mundo pois, devido à sua idade avançada já tem um rol de inquietações nomeadamente no campo oftalmológico.
Ela vem sofrendo de alguns tempos a esta parte de CATARATAS, patologia dos olhos que consiste na opacidade parcial ou total do cristalino ou de sua cápsula. Pode ser desencadeada por vários factores, como traumatismos, idade, diabetes e se não for tratado a tempo pode conduzir à cegueira daí que acerca de alguns meses foi submetida a intervenção cirúrgica para debelar o problema.
Não só não debelou o problema como surgiu uma nova patologia denominada de GLAUCOMA que se designa genericamente por uma reacção que afecta o nervo óptico e envolve a perda de células da retina num padrão característico de neuropatia óptica. A pressão ocular elevada é um factor de risco significativo que pode conduzir também à cegueira se não for tratado atempadamente.
Quando lá cheguei, fui encontra-la em exames médicos e análises preventivas devido à sua idade avançada e no dia do meu regresso aos Açores, ela deu entrada numa unidade hospitalar local para se submeter à dita cirurgia para irradiar a Glaucoma.
Esta segunda intervenção não correu também como era vontade de todos porque passado um curto espaço de tempo indo ao médico especialista para medição da tensão esta se encontrava a níveis exageradamente altos 37/40 quando se esperavam valores próximos de 18/24. Os próprios especialistas estavam admirados com os resultados pois nada fazia prever um desfecho daqueles.
Bem qual a solução? Mais uma intervenção cirúrgica, agora, realizada com outras técnicas que incluíam anestesia geral e tudo o que isso implica.
Poderão os Irmãos questionarem-se do que terão os Romeiros ou as Romarias a ver com todo esse desenvolvimento? Pois tem e muito.
Quando lá cheguei ofereci-lhe o lenço que utilizei na nossa última Romaria, explicando-lhe o seu significado e o que representava para nós etc., etc. Disse-lhe que quando se sentisse em apuros em alguma circunstância o colocasse sobre os ombros (uma ideia que me ocorreu).
Foi o que ela fez quando soube por meus irmãos que o próximo caminho, eram mais hospitais, doutores, cirurgias anestesias e muitas arrelias. Mal soube dessa notícia inquietante colocou o lenço sobre os ombros como lhe havia ensinado, e com muita fé pediu ao Senhor que tudo pode que se fosse possível “lhe afastasse aquele cálice” sublinhou inclusive, que nos 3 dias que antecederam a ida ao especialista para exames e mais exames chegou ao ponto de dormir com o lenço, porque depois das orações se sentia, tranquila e com uma grande paz.
Sabem meus irmãos o que aconteceu? O que estão a pensar…
Numa ida ao médico para mais exames toda a gente ficou estupefacta com o resultado dos exames pois os valores haviam baixado para os valores normais e que já não era necessário hospitalização nem cirurgia que podia ir para casa para o seu sossego que é o que merecia e estava precisando.
Para os incrédulos poderão concluir que se tratou de uma coincidência…
Para outros concluirão que se tratou de uma recuperação normal após a sua última intervenção.
E para nós homens de Jesus e da estrada que diremos? Que aquele lenço que significa a coroa de espinhos que o Senhor transportou por nós naquele dia de glória deu uma mãozinha a minha mãe e eu estou muito agradecido.
Esta história verídica testemunhada por mim será porventura objecto de alguma reflexão no futuro mas numa análise breve posso e devo concluir que os Romeiros e as Romarias são uma coisa muito séria."

Artigo da autoria de João Dinis

domingo, 2 de maio de 2010

Em romaria bebemos da Água Viva

"Estive algum tempo a apreciar estas duas figuras que compõem a cena da foto, por sinal numa mesa da sala cá de casa. Durante esse lapso de tempo em silêncio, veio-me à ideia turbilhões de imagens desse contraste entre o menino Jesus e o Romeiro. Veio-me à ideia passagens bíblicas como por exemplo, os pastores na adoração ao menino recém-nascido ou os apóstolos escutando as palavras de Jesus, entre outras passagens. Também me veio à ideia uma frase cheia de profundidade e sensibilidade que um irmão romeiro me disse há poucos dias sobre as romarias, que era mais ou menos o seguinte:
A romaria deverá ser o corolário de um ano de intensa oração, de testemunho “escondido” e meditação na palavra do Senhor Ressuscitado e não o seu começo
Realmente esta frase espelha o que deve ser uma romaria, tal como foi a vida de Jesus Cristo, um corolário de anos de intensa oração e testemunho do Pai, tendo terminado, não com a Paixão e Morte, mas sim com a Sua Ressurreição.
Como é belo o testemunho “escondido”, de cada um de nós perante a família, colegas e amigos durante o ano que antecede mais uma romaria. Como Marianos que somos ou tentamos ser, dia-a-dia, hora a hora ou minuto a minuto, é em silêncio e oração que meditamos na palavra do Senhor Ressuscitado, da água viva que Ele nos dá “Se conhecesses o dom que Deus tem para dar e quem é aquele que te está a pedir água, tu é que lhe pedirias e ele dar-te-ia Água Viva” (Jo 4, 10). É em silêncio, oração e em obras que damos testemunho dessa mesma água viva “Mas aquele que beber da Água que eu lhe der, nunca mais terá sede, pois esta Água converter-se-á nele em Fonte de água que dá a Vida eterna” (Jo 4, 14) perante a sociedade que nos rodeia.
Em romaria, seguimo-Lo como Maria seguia-O, de modo subtil, quase que ausentes deste mundo, mas com uma presença marcante e visível, tentando oração atrás de oração, beber dessa água especial. E por falar em água, lembro-me que li em tempos idos uma lenda árabe que dizia mais ou menos o seguinte:
“Contam que Deus um dia decidiu mudar todas as águas do mundo, e aquele que bebesse da nova água esquecer-se-ia da sua parte divina, esquecer-se-ia que era uma manifestação de Deus, o próprio Deus.
Apenas um único homem prestou a atenção devida às palavras do profeta que revelavam a intenção de Deus, e assim sendo, foi até a fonte e encheu muitos barris de água, que depois escondeu numa caverna que só ele conhecia.
Veio um enorme dilúvio que inundou toda a terra e levou toda a água que existia. Todas as águas foram trocadas e, cada pessoa que bebia da nova água imediatamente esquecia-se que era parte de Deus, esquecia-se que era uma criatura divina porque era filho da Divindade.
O homem que ouviu o profeta não bebeu da nova água e ia todos os dias ao seu esconderijo e bebia da velha água, aquela que não fazia esquecer. Ele era o único que sabia a verdade, o único que não se tinha esquecido quem era na verdade.
Depois de muito tempo, o homem que se lembrava começou a ficar incomodado com a solidão, com o isolamento ao qual era submetido por todos os outros, que não o compreendiam e que não sabiam o que ou quem ele era na verdade. A pressão da solidão foi muito grande, a vontade de relacionar-se outras pessoas começou a imperar e o homem acabou por beber da nova água.
Imediatamente esqueceu-se de quem era e tornou-se igual a todos os outros e nesse dia houve uma grande festa para comemorar a milagrosa cura do “louco”, que retornou de sua loucura para o convívio dos homens de bem.”
Esta curiosa lenda, remete-nos para um dos problemas actuais, quer da sociedade (no geral), quer em nós católicos (no particular), ou seja, beber da “água” que nos faz recordar quem realmente somos, pode muito bem significar caminhar em direcção a um isolamento e à solidão!
Nos nossos dias e na sociedade em que estamos inseridos, ao querermos beber dessa água, também leva a que nos achem loucos, incultos ou retrógrados até, e que eles os homens de bem é que realmente sabem quem são e quem nós somos…e quantas vezes somos tentados a acreditar nisso…
Como romeiros e em romaria, também por vezes somos alvo de julgamentos, considerados loucos ou desequilibrados, por apenas e tão só não seguirmos as “modas” ou as referências ilusórias de todos aqueles que precisam criá-las e alimentá-las para sobreviverem.
No entanto, ser cristão (no geral) e ser romeiro (em particular) significa, eliminar das nossas vidas a personagem conveniente ou as mil e uma máscaras que criamos, para sermos aceites segundo normas alheias ou regras impostas, e assim tornarmo-nos livres e predispostos a sermos aquilo que realmente somos, filhos de Deus. É verdade que este processo poderá ser algo doloroso, na medida em que nos obrigará a despirmo-nos dessas vestes imundas que nos cobrem, a ficarmos nus de todas as ilusões que nos dão conforto mas, é ao perder tudo aquilo que é supérfluo que poderemos beber da água viva e é ao perder isso tudo que encontraremos Deus Uno e Trino.
Volto a olhar novamente para este contraste peculiar e sui generis entre a grandiosidade de Deus no nascimento de Jesus (o menino) e a humildade de Cristo crucificado (romeiro), e noto que entre os dois existe uma distância enorme e humanamente intransponível entre a Sua concepção e a Sua ressurreição. Apesar dessa distância e sendo a romaria o corolário de um ano de intensa oração, testemunho e meditação, é também o local propício à nossa união com Cristo (fonte de Água Viva) e ambos encontrarmo-nos no “vazio do silêncio” que afinal de contas não nos distância, mas sim aproxima-nos de tal maneira que quase sentimos na boca o sabor das palavras:
“ – Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim
Artigo publicado no Jornal "A União" de 30 de Abril findo.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Cânticos e Orações V

ENTRADA NA IGREJA

1. Dai-nos licença, Senhora , Rainha Imaculada,
Para que entremos agora, em vossa santa morada.

2. Senhora, dai-nos licença, aos tristes filhos de Adão,
Para que em vossa presença, vos faça nossa oração.

3. Entrai pecadores, entrai, p’ra ver a mãe de Jesus,
E água benta tomai, fazei o sinal da cruz.

4. Quero pôr-me a vossos pés, hoje pela primeira vez,
Rainha dos altos céus, nossa mãe e de Deus.

5. Ajoelhai, pecadores, com os joelhos no chão.
Assim fez o redentor pela nossa salvação.

Cânticos e Orações IV

Oh Mística Rosa

Oh Mística Rosa!
Maria que tendes o Vosso amabilíssimo coração,
abrasado nas mais vivas chamas de caridade,
nos aceitaste por filhos, ao pé da Cruz,
Tornando-Vos nossa Mãe terníssima.
Ai fazei-me experimentar a doçura do Vosso maternal coração
e a força do Vosso poder junto a Jesus,
em todos os dias da nossa vida, especialmente no último,
na hora da nossa morte.
Ámen

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Do Mar da Galileia para a aventura dos Oceanos

"Aqui, no Atlântico Norte, a meio caminho entre a Velha Europa e os Novos Mundos, muitos dos portugueses católicos que aqui chegaram, ou que por aqui passaram, trouxeram as aragens do Espírito Santo, nas Caravelas de Quinhentos, com a Cruz de Cristo, a encimar a aventura, que se iniciou na Galileia, quando o Mestre escolheu os Doze para irem anunciar a Boa Nova.
Vem isto, a propósito da Assembleia Diocesana do Clero, que se está a realizar, na Casa de Retiros de Santa Catarina, no Pico da Urze, onde cerca de meia centena de Sacerdotes, reunidos com o nosso Bispo, tem estado a reflectir sobre a “espiritualidade do presbítero”, “fidelidade de Cristo, fidelidade do Sacerdote e “desafios à acção pastoral da Igreja”. Nessa reflexão ajudados pelo Padre António Bravo.
Oportuno este momento, a condizer com o Domingo do Bom Pastor, que se celebrou no Primeiro Dia da Semana. Dispersos no Arquipélago, os sacerdotes vindos das diversas nove Ilhas, ricos na sua diversidade de carismas e de gerações abrangidas por seis décadas de Evangelização.
Tempo curto perante a Eternidade, mas suficientemente longo, para as navegações da “Barca de Pedro”, soprada, muitas vezes, por ventos contrários, e por uma terra que, embora escassa, lhe correm nas veias a lava dos vulcões e terramotos: Vulcão dos Capelinhos (1957/1958); Terramoto de um da Janeiro de 1980, Terramoto de 9 de Julho de 1998, entre tantas outras crises, a apelar numa Reconstrução, que se continua e não mais acaba, a não ser na Bem-aventurança, que nos está reservada.
Açores visitados pelo Santo Padre João Paulo II, a 11 de Maio de 1991, e quando se avizinha a vinda a Portugal do Papa Bento XVI, ecoa-nos, ainda aos ouvidos, as palavras proferidas por João Paulo II, aos sacerdotes e fiéis desta Diocese de Angra: “A Reconstrução continua”. E tem de continuar, não apenas nos templos ainda por reconstruir, danificadas pelo último terramoto do Faial e Pico, mas muito mais nos desafios que nos esperam nestes tempos da Globalização.
Em Novembro do ano passado celebramos os 475 anos da elevação a Diocese de Angra, por Bula do Papa Paulo III, em 3 de Novembro de 1534. Mas a viagem da história da Evangelização continua nestas Ilhas e em todo o mundo, onde o apelo de missão nos chamar.
Não há que ter medo, mesmo com o mar alteroso, à nossa volta, pois Cristo, vai na barca. Preciso é estar atento à sua Palavra e deitar as redes à pesca. Ele aguarda-nos na próxima margem com o Pão da Vida e as brasas, onde se forjam os cristãos de sempre. "
Artigo publicado no Jornal "A União" de hoje da autoria do Padre Dolores