terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Possível explicação da pintura de Nossa Senhora Mãe dos Romeiros

Possível explicação da pintura de

Nossa Senhora Mãe dos Romeiros


 “Deus quer, o Homem sonha, a obra nasce”, já dizia o poeta Fernando Pessoa.

Não sinto que Deus queria verdadeiramente que o rancho oferece-se uma tela representando a Sua e nossa Mãe Maria Santíssima ao Santuário de Nossa Senhora da Conceição, no entanto, durante alguns meses sonhei com uma pintura que a representasse como “Mãe dos Romeiros”, tal como dizemos no fim das orações realizadas nos encontros mensais. Aliás, depois de uma pesquisa na internet sobre a origem dessa denominação, encontrei o seguinte paragrafo:
Nos anos 60 do século passado pela primeira vez aparece a denominação de "NOSSA SENHORA DO ROMEIRO", num nicho construído em Algarvia no Concelho do Nordeste. Este Nicho é paragem obrigatória para todos os ranchos para rezar, refletir e descansar.”1

Obviamente e que haja conhecimento, Nossa Senhora nunca apareceu a um rancho de romeiros, ainda que saibamos e sintamos no âmago da alma que Ela caminha connosco em romaria, no entanto, sonhava numa pintura que a representasse como tal.
Depois de algum tempo para amadurecimento da ideia, conforme costuma dizer o meu piedoso irmão Contra-Mestre Adalberto Couto, fui aos poucos apontando o que sentia que deveria fazer parte da pintura em causa, fruto das vivências ocorridas durante as romarias anteriores. Esta soma de apontamentos culminou na pintura que foi entregue no final da X Romaria Quaresmal ocorrida no ano findo e que se encontra no Passal.

Passando estes dois parágrafos, não para me mostrar ou querer ser mais do que os demais, mas sim apenas para uma breve explicação introdutória, passo a descrever a pintura em causa, do ponto de vista de sonhador.
Começando pelas árvores quase a formarem uma arcada (qual porta principal de uma igreja), representam o 4º dia de romaria, aquele dia em que apelidamos de dia do deserto. A meio desse dia, passamos por uma zona semelhante, e qual oásis no meio do deserto, ali encontramos alguma sombra e ar fresco em dias de calor. Uma particularidade interessante nestas árvores, é que o pintor sem que lhe tivesse sido dito, usou diversas tonalidades maioritariamente roxas, cor essa que é a usada, em termos litúrgicos, no Tempo Quaresmal.
A pomba sob Nossa Senhora, representa o Espírito Santo e os sete irmãos romeiros pedido a sua interceção, não sendo de forma alguma equiparáveis ao Apóstolos, de certa forma representam os sete dons do Divino Espírito Santo.
As tonalidades de azul que cobre o céu representa, não só as manhãs em romaria, como também é uma cor usada durante as festas e solenidades da Santíssima Virgem Maria.
A coroa de doze estrelas, representa a passagem bíblica descrita no Livro do Apocalipse, onde é dito Depois, apareceu no céu um grande sinal: uma Mulher vestida de Sol, com a Lua debaixo dos pés e com uma coroa de doze estrelas na cabeça.2
Os anjos que seguram o manto, representam cada um de nós, pecadores, mas que se alegram por um só que se converta.3
O interior do manto de cor escura, simboliza a escuridão. A escuridão nas madrugadas em romaria, mas principalmente a escuridão da alma, que muitas vezes passamos ao longa vida, no entanto, mesmo no meio de qualquer tipo de escuridão, Maria protege-nos sempre com o seu manto.
Os dois trios de romeiros de joelhos orando à Sua e Nossa Mãe, de certa forma representam quem nos acompanha em romaria, seja a Sagrada Família ou a Santíssima Trindade.
A cor do vestido de nossa senhora, remete-nos para a Paixão do Senhor e o sangue que Derramou por todos nós. Liturgicamente é uma cor usada no domingo de ramos, na sexta-feira Santa, assim como no domingo de Pentecostes. Atrevo-me a ir mais longe no meu pensamento em relação a esta cor, às palavras de Simeão, quando tomou Cristo nos seus braços e para além de ter bendito a Deus, terminou dizendo que uma espada trespassaria a alma de Maria sua mãe.4 Obviamente que no trespassar a alma, não há verdadeiro derramamento de sangue, no entanto, sinto que será qualquer coisa como esvair-se em sangue interiormente.
Os bordões dispostos dois a dois, por uma vertente simbolizam as duas alas em que a romaria caminha ao longo do dia e por outra vertente as quatro alas criadas quase ao fim do dia, quando a “Santa Maria” se encosta à “Avé Maria” para rezarem o terço da pernoita.
As dez rosas foram a forma bonita e poética de representar as dez romarias realizadas até ao ano findo. Confesso que sem ter sido pensado, depois de ter visto o quadro veio-me há ideia a enorme devoção que tenho para com Nossa Senhora, mais precisamente na de Guadalupe e o significado das rosas, nas suas aparições a Juan Diego no México no ano de 1531.

Por último, mas os últimos serão os primeiros5, temos o irmão mais importante em qualquer romaria, mais importante até que o Irmão Mestre ou Contra-Mestre, o irmão sem o qual nenhum rancho vai para a estrada, refiro-me ao menino da cruz. Por norma é uma criança que transporta o Crucifixo e no meu fraco entender, porque as crianças são puras, não têm maldade nas palavras e atos e é delas o Reino do Céu6.



Paulo Roldão
(um irmão romeiro, como os demais)

1 - http://romeiros-ribeiraquente.blogspot.com/2008/11/imagem-de-nossa-senhora-me-de-deus-e-do.html
2 - Ap 12,1
3 - Lc 15, 10
4 - Lc 12, 35
5 - Mt 20, 16
6 - Mt 19, 14

sábado, 21 de janeiro de 2017

Retiro de 2017



Retiro Preparatório para a XI Romaria.
(foto do grupo de irmãos que estiveram presentes)
Desde já os agradecimentos ao irmãos Franciscanos, não só por nos terem aberto as portas, como também pela partilha do Frade Vinhas. Agradecemos igualmente ao Padre Pedro Lima, pela partilha que lhe estava confiada. Ambos fizeram-nos abrasar os nossos corações.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Acompanhar o irmão que nos acompanha



Ainda a noite é uma criança e o nascer do dia a algumas horas de distância, é vê-los sair das suas igrejas, e é assim todos os anos pela Quaresma. São os romeiros, homens de barba rija e crianças valentes, que durante longos dias, deixam os seus confortos, as suas casas, os seus bens materiais e especialmente a sua família, negando-se a si mesmos, tomando as suas cruzes e seguindo-O1, entoando orações e cânticos dolentes melodiosamente gregorianos.

Em duas alas, seguem Aquele que vai à frente, levando o terço numa mão e o bordão na outra. Lado a lado, irmão a irmão e entre irmãos, bordão a bordão. Mas acompanhar pressupõe delicadeza e todo o respeito possível para com o outro, o que vai há frente, ou que vai ao lado ou o que vai atrás (pelo menos), isto é, em romaria e enquanto se caminha com o terço numa mão e o bordão na outra, não devemos criar ruídos de fundo, para que o irmão que reza, reze verdadeiramente e possa escuta-Lo em profundidade, seja no silêncio da oração, nos aromas que pairam no ar ou na brisa que passa.
É preciso aprender ou relembramo-nos a “descalçar sempre as sandálias diante da terra sagrada do outro”2 e “dar ao nosso caminhar o ritmo salutar da proximidade, com um olhar respeitoso e cheio de compaixão, mas que ao mesmo tempo cure, liberte e anime a amadurecer na vida cristã”3. É preciso acompanhar o irmão que nos acompanha com misericórdia não só nas etapas do seu crescimento como também nas nossas, porque um pequeno passo no meio das nossas limitações, poderá ser mais agradável a Deus do que tudo o resto. Um pequeno passo poderá apenas ser, saber respeitar o silêncio e a oração do outro que nos acompanha em romaria. “A oração deverá ser feita, na medida do possível, numa situação de serenidade de espírito e, portanto, no silêncio e com a alma livre de qualquer ansiedade”, como escreveu Santa Ângela de Foligno.

Termino, relembrando a todos os irmãos romeiros, começando por mim que “O cristianismo é uma religião de relação. Há regras, há normas, há cânones, há tudo isso... Mas se não assentam sobre uma relação pessoal com Deus, com Jesus Cristo, são como o bronze que ressoa, para usar um termo evangélico”4.


Paulo Roldão
(um irmão romeiro, como os demais)

1 - Lc 9, 23
2 - Ex 3,5
3 - EG 169
4 - Excerto da introdução do livro “Que fazes aí fechada?” de Filipe D`Avillez