quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

9. Quinta feira depois do I domingo da Quaresma: Foi conveniente Cristo ser crucificado entre ladrões


 Quinta-feira depois do I domingo da Quaresma

Cristo foi crucificado entre os ladrões, por uma razão se considerarmos a

intenção dos judeus, e por outra, considerada a ordem de Deus.


1. Quanto à intenção dos judeus, crucificaram aos lados de Cristo dois

ladrões, como adverte Crisóstomo, «para que ele participasse da ignomínia

deles. Contudo, àqueles ninguém se refere, ao passo que a cruz de Cristo é

honrada em toda parte. Os reis, depondo os seus diademas, assumem a cruz:

no meio dos diademas, das armas, da mesa sagrada, em toda a parte do

mundo a cruz resplandece.»

Quanto à ordenação de Deus, Cristo foi crucificado entre ladrões, porque,

segundo diz Jerônimo, «assim como Cristo foi feito na cruz maldição por

nós, assim, foi crucificado como criminoso entre criminosos, para a salvação

de todos».

2. Segundo, como diz Leão Papa, «dois ladrões foram crucificados, um ao

lado direito e outro ao lado esquerdo de Cristo, a fim de que nesse

espetáculo mesmo do patíbulo se espelhasse aquela separação que ele

próprio há de fazer quando vier a julgar os homens». E Agostinho diz: «Se

bem refletires verás, que essa cruz foi um tribunal. O juiz está posto no meio;

o que acreditou foi salvo; o outro, que insultou, foi condenado. Por onde se

vê o que Cristo fará um dia, dos vivos e dos mortos, colocando aqueles à sua

direita e os outros, à esquerda.»

3. Terceiro, segundo Hilário, porque «os dois ladrões crucificados -- um, à

direita, o outro à esquerda, mostram que toda a diversidade do gênero

humano é chamada a participar do mistério da Paixão de Cristo. Mas como

a divisão entre fiéis e infiéis é correspondente aos lados direito e esquerdo,

um dos dois, o colocado à direita, foi salvo pela justificação da fé.»

4. Quarto, porque, como diz Beda, «os ladrões crucificados com o Senhor,

simbolizam aqueles que, sob a fé e a confissão de Cristo, sofrem a agonia do

martírio, ou vivem sob as regras de uma disciplina mais austera. E os que

trabalham para a glória eterna são figurados pelo ladrão da direita; ao passo

que os de olhos postos na glória humana imitam os atos do ladrão da

esquerda.»

III, q. XLVI, a. 11

(P. D. Mézard, O. P., Meditationes ex Operibus S. Thomae.)

Romaria Virtual explicada


 

Assim como a liturgia das horas é efetuada por muitos cristãos, em diversas horas do dia, sendo estes os momentos de parar no meio de toda a agitação da vida e recordar que a Obra é de Deus, no intuito de estarem ligados ao Criador todo o dia, assim será a romaria. Durante 7 momentos no dia, iremos partilhar a Palavra de Deus, no intuito, de também pararmos da agitação laboral e em união espiritual estarmos todos juntos nas partilhas, como se em romaria estivéssemos.

A palavra que sairá das bocas de alguns irmãos romeiros, a palavra que irá sair da boca do irmão Padre nas suas meditações diárias e a Palavra de Deus, na recitação do terço diário da pernoita e das leituras do dia aquando das Celebrações Litúrgicas.

Assim, a romaria irá ser partilhada nos seguintes momentos e nos seguintes moldes:


- 08:00 – Partilha do primeiro terço do dia em romaria, por um irmão romeiro;

- 10:00 – 1ª meditação do dia com cântico introdutório;

- 12:00 - Partilha do segundo terço do dia em romaria, por um irmão romeiro;

- 14:00 - 2ª meditação do dia;

- 16:00 - Partilha do terceiro terço do dia em romaria, por um irmão romeiro;

- 18:00 – Terço da pernoita (com os mistérios do dia);

- 19:00 – Celebração Eucarística (Leituras do dia).

Entre estas horas, iremos partilhar algumas imagens alusivas ao dia, com a permissão dos seus autores.

Um irmão romeiro, como os demais.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

8. Quarta-feira depois do I domingo da Quaresma: A imensidade da dor da Paixão de Cristo


 Quarta-feira depois do I domingo da Quaresma

«Atendei e vede se há dor semelhante à minha dor» (Lm 1, 12)


Cristo, na sua paixão, sofreu verdadeiramente a dor. Tanto a sensível,

causada pelos tormentos corpóreos, como a interior, causada pela apreensão

do mal, que se chama tristeza. Ora, ambas essas dores foram máximas em

Cristo, entre as dores da vida presente. O que se explica por quatro razões.

1. Primeiro, pelas causas da dor. Pois, a dor sensível teve como causa uma

lesão corpórea cheia de acerbidade, tanto pela generalidade da paixão, como

pelo gênero da mesma. Pois, a morte dos crucificados é acerbíssima, por

serem trespassados em lugares nervosos e sobremaneira sensíveis, que são as

mãos e os pés. E além disso, o peso mesmo do corpo pendente

continuamente aumenta a dor; acrescentando-se ainda a diuturnidade dela,

pois os crucificados não morrem logo como os mortos pela espada.

Quanto à dor interna, teve as causas seguintes. Primeiro, todos os pecados

do gênero humano, pelos quais satisfazia com os seus sofrimentos; por isso

como que os avocou a si dizendo: «Os clamores dos meus pecados» (Sl 21, 1).

Segundo e especialmente, a culpa dos judeus e dos outros, que lhe infligiram

a morte; e sobretudo a dos discípulos, que se escandalizaram com a paixão

de Cristo. Terceiro, ainda, a perda da vida do corpo, naturalmente horrível à

natureza humana.

2. Segundo, a grandeza da dor pode ser considerada relativamente à

sensibilidade do paciente. Assim, o seu corpo tinha a melhor das

compleições; pois, fora formado milagrosamente por obra do Espírito Santo.

Porque nada é mais perfeito que o produzido por milagre, e por isso, o

sentido do tato, que serve para perceber a dor, era em Cristo extremamente

delicado. Também a alma, nas suas potências interiores, apreendia com

grande eficácia toda as causas da tristeza.

3. Terceiro, a grandeza da dor de Cristo na sua paixão pode ser considerada

quanto à pureza da mesma dor. Pois, nos outros pacientes, mitiga-se a

tristeza interior e também a dor externa, pela reflexão racional, causando

uma certa derivação ou redundância das potências superiores para as

inferiores. O que não se deu na paixão de Cristo, pois, a cada uma das

potências permitia agir dentro do que lhe era próprio, como diz Damasceno.

4. Quarto, a grandeza da dor de Cristo pode ser considerada quanto ao fato

de ser a sua paixão e sua dor assumidas voluntariamente, com o fim de livrar

o homem do pecado. Por isso, assumiu uma dor tão grande, que fosse

proporcionada à grandeza do fruto dela resultante.

Assim, pois, de todas essas causas simultaneamente consideradas, resulta

claro que a dor de Cristo foi a máxima das dores.

III, q. XLVI, a. 6.

(P. D. Mézard, O. P., Meditationes ex Operibus S. Thomae.)

terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

7. Terça-feira depois do I domingo da Quaresma: De que modo Cristo sofreu todos os sofrimentos


 Terça-feira depois do I domingo da Quaresma

Os sofrimentos humanos podem ser considerados à dupla luz. Primeiro,

quanto à espécie. E então, não devia Cristo sofrer todos os sofrimentos; pois,

muitas espécies de sofrimentos são contrárias entre si, tal a combustão pelo

fogo e a submersão na água. Mas, agora tratamos dos sofrimentos de

proveniência extrínseca; pois, os sofrimentos procedentes de causas

externas, como as doenças do corpo, não devia ele sofrê-los, como dissemos.

Mas, quanto ao gênero, sofreu todos os sofrimentos humanos. O que é

susceptível de tríplice consideração:


1. Primeiro, quanto aos homens que lhe causaram sofrimentos. Pois, certos

sofrimentos lhe foram infligidos pelos gentios e pelos judeus; por homens e

por mulheres, como o mostram as criadas acusadoras de Pedro. Também

recebeu sofrimentos de príncipes e de seus ministros, e do populacho,

conforme a Escritura (Sl 2, 1): « Por que razão se embraveceram as nações e

os povos meditaram coisas vãs? Os reis da terra se sublevaram e os príncipes se

coligaram contra o Senhor e seu Cristo». Sofreu também de seus discípulos e

conhecidos: como de Judas, que o traiu e de Pedro, que o negou.

2. Segundo, o mesmo se conclui relativamente àquilo em que o homem pode

sofrer. Assim, sofreu nos seus amigos, que o abandonaram; na sua reputação,

pelas blasfêmias contra ele proferidas; na sua honra e glória, pelas irrisões e

contumélias contra ele assacadas; nos bens, quando das suas próprias vestes

foi espoliado; na alma, pela tristeza, pelo tédio e pelo temor; no corpo, pelos

ferimentos e flagelações.

3. Terceiro, podemos considerá-lo relativamente aos membros do corpo.

Assim, Cristo sofreu, na cabeça, a coroa de pungentes espinhos; nas mãos e

nos pés, a pregação dos cravos; na face, bofetadas e cuspe; e em todo o

corpo, flagelações. Sofreu também em todos os sentidos do corpo: no tato,

quando flagelado e pregado com cravos; no gosto, quando lhe deram de

beber fel e vinagre; no olfato, quando suspenso no patíbulo, num lugar fétido

pelos cadáveres dos supliciados, chamado Calvário; no ouvido, ferido pelas

vociferações dos que o blasfemavam e faziam dele irrisão; na vista, ao ver

sua mãe e o discípulo a quem amava, chorando.

Quanto à suficiência, um sofrimento mínimo de Cristo bastava para remir o

gênero humano de todos os pecados. Mas, quanto à conveniência, foi

suficiente que sofresse todos os gêneros de sofrimentos.

III, q. XLVI, a. 5.

(P. D. Mézard, O. P., Meditationes ex Operibus S. Thomae.)

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

6. Segunda-feira depois do I domingo da Quaresma: Cristo devia ser tentado no deserto


 Segunda feira depois do I domingo da Quaresma

«Jesus estava no deserto quarenta dias e quarenta noites e ali foi tentado por

Satanás» (Mc 1, 13)


I. —Cristo, por vontade própria deixou-se tentar pelo diabo, assim como

voluntariamente entregou o corpo à morte; do contrário, o diabo não

ousaria aproximar-se dele. Ora, o diabo atenta de preferência os solitários;

pois, como diz a Escritura (Ecle 4, 12), «se alguém prevalecer contra um, dois

lhe resistem». Por isso foi Cristo para o deserto, como para o campo da luta,

para ser nele tentado pelo diabo. Donde o dizer Ambrósio, que Cristo foi ao

deserto deliberadamente, para provocar o diabo. Pois, se este não viesse

atacá-lo, i. é, o diabo, Cristo não o teria vencido.

Mas, acrescenta ainda outras razões, dizendo que Cristo assim procedeu

misteriosamente para livrar Adão do exílio; pois, este fora precipitado, do

paraíso, num deserto. Para nos mostrar, com o seu exemplo, que o diabo

inveja os que progridem no bem.

II. — Cristo, indo ao deserto, se expôs à tentação. Crisóstomo diz: «contra os

solitários é que o diabo emprega toda a força da sua tentação. Por isso, no

princípio tentou a mulher, quando a viu desacompanhada de

Adão». Contudo, isso não significa que o homem deva,

indiscriminadamente, se deixar expor à tentação.

Há duas espécies de ocasião à tentação. Uma da parte do homem, como

quando não evitamos as ocasiões próximas de pecar. Pois, tais ocasiões

devemos evitá-las, como foi dito a Lot: «Não pares em parte alguma dos

arredores de Sodoma» (Gn 19, 17). A outra espécie de ocasião vem do diabo,

sempre invejoso de quem se esforça para ser melhor. E essa ocasião de

tentação não devemos evitá-la. Por isso diz Crisóstomo: «Não só Cristo foi

levado pelo Espírito ao deserto, mas também todos os filhos de Deus

possuidores do Espírito Santo, que não consentem em ficar ociosos, mas são

ungidos pelo Espírito Santo a empreender grandes obras; e isso, para o

diabo, é estar no deserto, onde não há o pecado que ele se compraz. Também

todas as boas obras constituem um deserto, para a carne e para o mundo,

porque contrariam as tendências de uma e de outro.»

Ora, dar ocasião de tentação ao diabo não é perigoso, porque maior é o

auxílio do Espírito Santo, autor das obras perfeitas, do que o ataque do diabo

invejoso.

III, q. XLI, a. 2.

(P. D. Mézard, O. P., Meditationes ex Operibus S. Thomae.)

domingo, 21 de fevereiro de 2021

5. Primeiro domingo da Quaresma: A tentação de Cristo


 I Domingo da Quaresma

«Foi levado Jesus pelo Espírito ao deserto, para ser tentado pelo diabo.» (Mt 4,

1)


Cristo quis ser tentado:

1. Primeiro, para nos dar auxílio contra as tentações. Por isso diz

Gregório: «Não era indigno do nosso Redentor querer ser tentado, ele que

veio para ser imolado; para que assim vencesse as nossas tentações com as

suas, assim como venceu com a sua a nossa morte.»

2. Segundo, para nossa cautela: a fim de que ninguém, por santo que seja, se

julgue seguro e imune da tentação. Por isso quis ser tentado depois do

batismo; porque, como diz Hilário, «as tentações do diabo são mais

freqüentes sobretudo contra os santos, porque sobre estes é que ela mais

deseja a vitória.» Donde o dizer a Escritura (Ecle 2, 1): «Filho, quando

entrares no serviço de Deus, tenha-se firme na justiça e no temor e prepara a

tua alma para a tentação.»

3. Terceiro, para nos dar o exemplo de como devemos vencer as tentações do

diabo. Donde o dizer Agostinho: «Cristo deixou-se tentar pelo diabo, para

nos mostrar como venceremos as suas tentações, não somente pelo seu auxílio,

mas também pelo seu exemplo.»

4. Quarto, para nos excitar à confiança na sua misericórdia. Donde o dizer o

Apóstolo (Heb 4, 15): «Não temos um pontífice que não possa compadecer-se

das nossas enfermidades, mas que foi tentado em todas as coisas à nossa

semelhança, exceto o pecado».

III, q. XLI, a. 1.

(P. D. Mézard, O. P., Meditationes ex Operibus S. Thomae.)

sábado, 20 de fevereiro de 2021

4. Sábado depois das cinzas: O grão de trigo


 Sábado depois das Cinzas

«Em verdade, em verdade vos digo que, se o grão de trigo que cai na terra não

morrer, fica infecundo» (Jo 12, 24)

I. — O grão de trigo é de dois modos usado: para o feitio do pão e para a

semeadura. O versículo acima diz respeito ao grão de trigo como semente,

não como matéria do pão, pois, nesse último caso, não precisa fecundar para

dar fruto. Se o grão de trigo não morrer, não que perca sua virtude seminal,

mas porque muda de espécie. «o que tu semeias não toma vida, se primeiro

não morre» (1 Cor 15, 36)

Ora, assim como o Verbo de Deus é semente na alma do homem, no

sentido de que é introduzida por voz sensível, para produzir o fruto da

boa obra, cf «A semente é a palavra de Deus» (Lc 8, 11); assim o Verbo de

Deus, revestido de carne, é semente enviada ao mundo para originar uma

grande seara. Por isso, também é comparado com o grão de mostarda,

como se lê nas Escrituras(Mt 13). Nosso Senhor diz: Vim como semente

para frutificar e, por isso, em verdade vos digo, «se o grão de trigo que cai na

terra não morrer, fica infecundo», isto é, se Eu não morrer, o fruto da

conversão das gentes não se produzirá. Também se compara ao grão de trigo

por que veio para restaurar e sustentar as vidas humanas: ora, é sobretudo

isto o que faz o pão de trigo. «o pão robustece o coração do homem» (Sl 103,

15) e «e o pão que eu darei é a minha carne para a salvação do mundo» (Jo 6,

52).

II. — «mas, se morrer, produz muito fruto.» (Jo 12, 24).

Nosso Senhor alude aqui à utilidade da paixão,e é como se dissesse: a não

ser que Eu caia por terra, humilhado, na minha Paixão, nenhum proveito se

seguirá, pois se o grão de trigo não morrer, fica infecundo. Mas, se morrer, isto

é, se Eu for castigado e morto pelos judeus, muito fruto se produzirá:

1. O fruto da remissão dos pecados. «todo o fruto será a expiação do seu

pecado» (Is 27, 9). Este fruto a Paixão de Cristo produziu, cf.«Porque

também Cristo morreu uma vez pelos nossos pecados, ele, justo pelos injustos,

para nos oferecer a Deus» (1 Pd 3, 18).

2. O fruto da conversão dos gentios a Deus. «fui eu que vos escolhi a vós, e

que vos destinei para que vades e deis fruto, e para que o vosso fruto

permaneça» (Jo 15, 16). Este fruto a Paixão de Cristo produziu, cf. «E eu,

quando for levantado da terra, atrairei tudo a mim»(Jo 12, 32).

3. O fruto da glória. «o fruto dos bons trabalhos é glorioso» (Sb 3, 15). E,

também este fruto, a Paixão de Cristo produziu, cf. «Portanto, irmãos, temos

nós confiança de entrar no Santo dos Santos pelo sangue de Cristo, pelo

caminho novo e vivo que nos abriu através do véu, isto é, através de sua

carne» (Heb 10, 19)

In Joan, XII

(P. D. Mézard, O. P., Meditationes ex Operibus S. Thomae.)