quarta-feira, 3 de março de 2021

Terço da pernoita (Por todas as vitimas do COVID)

 

Mistérios Gloriosos


Primeiro Mistério Glorioso: Ressurreição de Jesus


«No primeiro dia da semana, muito cedo, dirigiram-se ao sepulcro com os aromas que haviam preparado. Acharam a pedra removida longe da abertura do sepulcro. Entraram, mas não encontraram o corpo do Senhor Jesus. Não sabiam elas o que pensar, quando apareceram em frente delas dois personagens com vestes resplandecentes. Como estivessem amedrontadas e voltassem o rosto para o chão, disseram-lhes eles: "Por que buscais entre os mortos aquele que está vivo? Não está aqui, mas ressuscitou"» (Lc 24, 1-6).


Pai Nosso, 10 Ave Marias (meditando o mistério), Glória ao Pai.

Segundo Mistério Glorioso: Ascensão de Jesus ao Céu


«Depois que o Senhor Jesus lhes falou, foi levado ao céu e está sentado à direita de Deus» (Mc 16, 19).


Pai Nosso, 10 Ave Marias (meditando o mistério), Glória ao Pai.

Terceiro Mistério Glorioso: Vinda do Espírito Santo sobre os Apóstolos


«Chegando o dia de Pentecostes, estavam todos reunidos no mesmo lugar. De repente, veio do céu um ruído, como se soprasse um vento impetuoso, e encheu toda a casa onde estavam sentados. Apareceu-lhes então uma espécie de línguas de fogo que se repartiram e pousaram sobre cada um deles. Ficaram todos cheios do Espírito Santo e começaram a falar em línguas, conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem» (At 2, 1-4).


Pai Nosso, 10 Ave Marias (meditando o mistério), Glória ao Pai.

Quarto Mistério Glorioso: Assunção de Maria


«Por isto, desde agora, me proclamarão bem-aventurada todas as gerações, porque realizou em mim maravilhas aquele que é poderoso e cujo nome é Santo» (Lc 1, 48-49).


Pai Nosso, 10 Ave Marias (meditando o mistério), Glória ao Pai.



Quinto Mistério Glorioso: Coroação de Maria no Céu


«Apareceu em seguida um grande sinal no céu: uma Mulher revestida do sol, a lua debaixo dos seus pés e na cabeça uma coroa de doze estrelas» (Ap 12, 1).


Pai Nosso, 10 Ave Marias (meditando o mistério), Glória ao Pai.

1º DIA DE ROMARIA – VISÃO DO IRMÃO MESTRE – TERCEIRO TERÇO

 


A segunda meditação do dia completa a primeira. Alguns irmãos, que habitualmente trazem um pequeno caderno, vão tomando as suas notas. Notas para tirar duvidas posteriormente ou notas para aprofundar finda a romaria. Outros vão ouvindo e interiorizando as palavras e frases que vão saindo da boca do irmão Padre.

Ainda que ouça e vá seguindo o raciocínio do que é dito, mais umas chamadas tenho que fazer. Afasto-me um pouco e faço-as.

O irmão Padre pergunta-me se ainda tem tempo para dizer mais algumas palavras. Respondo que sim, que quando estiver no tempo, faço sinal. Claro que há alturas em que ainda há tempo e outras em que o tempo está no fim, mas, se a partilha está a ser algo que nos aquece e enche a alma, mesmo que já possa ter passado algum tempo, deixo seguir. Mais há frente, se for necessário, corto na paragem ou peço aos guias que andem um pouco mais, caso veja que nenhum irmão está mal no seu andamento. Para isso também conto com o irmão contra mestre.

Finda a segunda meditação do dia, seguimos até à igreja de São Bartolomeu.

Seguimos por um caminho pedonal fronteiro ao mar. Novamente aquele cheiro a maresia.

O caminho até há próxima igreja é longo, com subidas e caminhos planos. Depois de passarmos o Negrito, lanço novamente a salva para voltarmos a rezar alguns pedidos que, entretanto, foram pedindo, somados aos que ficaram por rezar. No final destes, continuamos em silêncio a romaria.

Falta algum fresco e vento de outras romarias, mas, todos os anos o tempo nunca é igual.

A meio da última subida até há igreja, lanço a salva e recomeçamos a cantar o Avé Maria.

Na igreja, para além do pároco, também estão alguns idosos há nossa espera. Começamos pela oração ao padroeiro e depois o cântico de entrada. Ao contrário do dia a dia em que se entra pelas laterais, hoje estão abertas as portas do meio, como se se tratasse de uma cerimónia especial marcada no calendário litúrgico.

Já não é primeiro local nem será o último.

Tendo alguma confiança com o pároco, pergunto-lhe do porquê, já que somos Pecadores convictos disso, ainda que almejemos a santidade e a Vida Eterna. Responde-me:

“– Vocês estão numa missão em nome de Jesus Cristo e como tal vêm em Seu nome e não em vosso nome, como tal, para nós é um momento especial receber aqueles que vêm em Seu nome.”

Terminados os cânticos, orações e pedidos, saímos fazendo o sinal da cruz e passando os dedos pela água benta, fazemos um segundo sinal da cruz.

Agradeço ao pároco a sua amabilidade e despeço-me com um “- Até para o ano se Deus quiser!”

Dali até à freguesia da Cinco Ribeiras, à igreja de Nossa Senhora do Pilar, são mais alguns minutos, certa de 25 minutos mais ou menos, dependendo do andamento do rancho e dos fatores meteorológicos.

Em silêncio e oração continuamos a caminhada. Já falta pouco para o descanso merecido, para descansar os ossos por algum tempo até ao início do segundo dia.

Chegados ao início da freguesia da Cinco Ribeiras, e uma sobra de estrada ali existente fazemos mais uma paragem para o que for necessário.

Tal como em outras alturas do dia, pergunto, não só ao menino da Cruz, como às demais crianças se está a correr bem, se estão bem. O menino da Cruz sei que está bem, porque os irmãos-guia também se preocupam com ele. Já houve anos em que durante algum tempo, os irmãos-guia davam as mãos ao irmão menino da Cruz para o ajudar e resultou.

Os mais atrás também vão bem, tem irmãos de ala mais velhos que os vão ajudando, quer com gestos, quer com palavras de conforto. Também por ali vai o irmão contra mestre, que bem sei se preocupar, não só pelo cargo ou ser apenas romeiro, mas também por ser avô. Mas é meu dever saber como estão todos os irmãos, especialmente os mais novos.

Dali à igreja das Cinco Ribeiras foi rápida a caminhada. Não que o rancho fosse mais depressa, mas sim que a igreja estava perto.

Ali há porta e dentro fizemos as nossas orações.

Saindo e começando em direção à última igreja deste dia, na altura devida, o irmão Lembrador das Almas lançou a salva e todos nós respondemos. Depois fez os pedidos de oração por todos os que estavam sepultados naquele cemitério, tal como em todos os outros cemitérios por onde passamos. Findado os pedidos pelos defuntos, continuamos o cântico do Avé Maria e intervalamos com os pedidos do irmão Lembrador das Almas.

À entrada de Santa Bárbara, uma paragem prevista e necessária. Para o começo da missa naquela freguesia ainda faltava algum tempo, mas, depois da paragem retomamos a caminhada até ela.

Quando chegamos já tinha algumas pessoas, pessoas que aguardavam a hora para a recitação do terço por parte do pároco dali.

Entramos e fizemos as nossas orações, cânticos e agradecimentos, juntamente com essas pessoas. Nas orações ouviam-se as suas vozes, já nos cânticos nem tanto, mas é compreensível, ninguém sabe todos os cânticos. Por vezes até nós nos enganamos.

Ao sairmos, uma pessoa agradeceu os pedidos que foram feitos pelos presentes. Sorri apenas.

Este dia estava quase terminado. As igrejas deste dia já foram todas visitadas, agora é romar até há freguesia das Doze Ribeiras para pernoitarmos no edifício sede do respetivo grupo folclórico.

A meio caminho peço ao irmão que habitualmente reza o terço da pernoita, para o fazer. Entretanto peço à Santa Maria para se juntar á Avé Maria, criando assim 4 alas, para que todos os irmãos assim mais juntos possam ouvir melhor.

Há entrada da freguesia o terço está terminado e voltam a 2 alas.

Uma pequena subida nos separa de uma sopa quente acompanhada com pão caseiro feito em forno de lenha, um banho e de uma noite de descanso numa sala onde todos dormirão juntos nos seus sacos cama em cima dos colchões que os irmãos sem bordão já lá deixaram há algumas horas.

Chegámos. Algumas pessoas da direção estão ali para nos receber com um sorriso rasgado e olhar meigo, principalmente para as crianças.

Vou à frente e tiro a Cruz ao irmão que a trouxe. Dou um beijo nela, seguindo-se os demais irmãos, conforme vão entrando.

 

Boa noite irmãos. Até amanhã se Deus quiser!

2ª meditação do dia



O Vídeo sendo grande, poderá ver no facebook do rancho na mesma hora, ou seja, precisamente agora.


1º DIA DE ROMARIA – VISÃO DO IRMÃO MESTRE – SEGUNDO TERÇO

 


Toco a cabrinha, para que os irmãos se juntem para a meditação. Cada um tira o seu guião das meditações, para irem seguindo o raciocínio do irmão Padre e tirarem duvidas quando as tiverem. A esta partilha da meditação também estão presentes as senhoras que se dignaram a abrir as portas, assim como a trazer a imagem. Deus Nosso Senhor as recompense!

 

Após a meditação, descemos os 72 degraus, mais fáceis agora e formamos o rancho na entrada.

Depois desta partilha, balsamo para a alma, vamos em direção à Casa de São Francisco da Congregação das Irmãs Franciscanas Hospitaleiras da Imaculada Conceição, para o almoço.

Desde a I romaria que elas, com muito gosto e devoção a Cristo, que nos abrem as suas portas, não só para orarmos na sua capela como também para o almoço. São poucos os homens que ali entram e nós temos a graça de Deus de nos receberem. Na capela algumas irmãs acompanham-nos nas orações e cânticos.

Findado essa parte saímos, e fora da capela, pousamos a cevadeira e o xaile, ficando apenas com o lenço e os terços. Alguns irmãos, poe ao pescoço das irmãs que ali estão um dos terços que trazem. Elas agradecem.

O irmão Padre profere a oração da partilha da refeição e um a um, vão entrando no refeitório e servindo-se da sopa, pão e segundo. Nas mesas já têm jarros de água e fruta em abundância.

Depois de me servir (sou o último) uma das irmãs diz que quem quiser pode repetir.

Lembro-me do primeiro ano que fui falar com a irmã responsável e lhe ter pedido que para nós bastava uma sopa, pão e água, ao que ela me respondeu:

“– Se fosse Jesus a vir aqui, acha que só lhe íamos dar isso?”

Depois desta resposta, e dai por diante, nunca mais me atrevi a fazer esse pedido, apenas lhe digo o número de irmãos atempadamente.

Findada a refeição, aparelhamo-nos e formamos o rancho na saída da casa. Um ou outro irmão já não se lembra que ofereceu o seu terço e uma ou outra irmã, traz e pergunta de quem é. Entre irmãos que já se conhecem há pelos menos um ano, vêm ao de cima as piadas sem maledicência sobre o esquecimento. Também faz parte da romaria isso.

Fazemos os agradecimentos devidos, pedimos pela sua congregação e pelo aumento de vocações, entre outros pedidos, terminando com o cântico do piedoso irmão Luís Castro.

As irmãs agradecem e acenam em sinal de alegria e nós respondemos “– Até para o ano se Deus quiser!”

Dali seguimos em direção à igreja de São Carlos. Como o caminho não tem muitas casas, opto por pedir para rezarem dois terços por intenções.

Já perto da igreja, lanço a salva para que o rancho recomece a cantar o Avé Maria.

Sabendo que um dos irmãos reside ali, na hora de almoço pedi-lhe que fosse o orador, ao que ele agradeceu e disse que sim, que o faria com muito gosto.

Não sei como serão os outros ranchos, mas se algum dos irmãos reside na paroquia onde vamos passar e entrar na sua igreja, atempadamente pergunto se não quer ser o orador nela. Mesmo que a voz, cântico ou oração não saia como ele esperava, não me preocupo. Nem eu nem o meu contra-mestre, porque sabemos que ele fez o melhor que podia na sua paroquia e isso, temos a certeza que agrada a Deus.

Naquela igreja, ao contrário das demais da ilha, se não me engano, o Cristo ali existente é Ressuscitado e não Crucificado, se bem que com a iluminação ali existente, vemos os dois em simultâneo. O Cristo Ressuscitado “fisicamente” e o Crucificado como uma sombra.

Dali seguimos para a igreja de Nossa Senhora de Belém, na freguesia de Terra-Chã, passando pela ermida de Jesus Maria e José, particular por sinal.

Mais uma vez revejo os tempos e mais uma chamada telefónica necessária.

Chegados à igreja de Nossa Senhora de Belém, entramos, rezamos e cantamos o que o orador previsto escolheu. Vejo lá ao fundo o pároco daquela freguesia e connosco estão algumas pessoas. As que nos abriram as portas e mais algumas que no percurso final nos viram e também quiseram orar connosco. O orador, também ciente disso, também pede por eles e suas famílias.

Saímos cantando até pararmos numa zona descampada entre esta freguesia e a freguesia de São Mateus da Calheta. Ali fazemos mais uma paragem prevista para o que for preciso. Alguns irmãos aproveitam para se esticarem um pouco em cima da calçada. Outros fumam um cigarro. Apesar de ainda ser o primeiro dia, aproveito para falar com os novos sobre a romaria e como estão fisicamente. Aproveito novamente para trocar algumas palavras com o irmão contra-mestre, já que como vai na parte do Avé Maria, nem sempre dá para falar fazendo caminho.

Depois desta pausa merecida a cabrinha toca, para formar rancho. Por vezes acontece neste momento, um ou outro irmão lembrar-se de ir fazer uma necessidade, quando teve algum tempo para isso, mas, faz parte.

Formado o rancho e indo em silêncio rezando os terços que possam estar em atraso, partimos em direção à Ermida de São Francisco das Almas, no lugar do Cantinho, na freguesia de São Mateus da Calheta. Também ali, o orador é um residente no local e como tal é ele que fará as orações, cânticos e pedidos.

A ermida está aberta, como os demais locais até este momento, graças a Deus. Lá dentro duas ou três pessoas acompanham-nos. Estando atrás, faço um gesto de agradecimento a essas pessoas e elas sorriem.

Saindo, continuamos em direção à igreja paroquial da freguesia. Um caminho ainda longo e alguns km nos separam.

Tendo já falado com o irmão Procurador das Almas, sobre os pedidos que fomos recebendo até então, aproveito este caminho para pedir aos irmãos que, naquele trajeto iremos rezar alguns dos pedidos que o rancho recebeu. Muitos pedidos por doenças, outros pelos filhos andarem por caminhos errantes, outros ainda para obterem trabalho. Mas também há pedidos de agradecimentos. Pela cura de alguém, pelos estudos terem corrido bem, por terem arranjado emprego, entre outros.

Dali até há referida igreja, vou rezando e os restantes irmãos acompanhando. Contas atrás de contas, vamos pagando os pedidos que nos foram feitos, alias, para nós não é sacrifício, mas sim o nosso dever e a nossa salvação….rezar!

Na igreja paroquial, mais um irmão que ali reside é o orador. Também ali estão algumas pessoas aguardando por nós, assim como o pároco.

Calmamente e pausadamente o irmão executa os cânticos, as orações e os pedidos.

Olho para o relógio. Sem nos darmos conta já passaram cerca de 10 minutos, 10 belos minutos com Ele.

Depois de o dever ali cumprido, seguimos em direção há igreja velha, para mais uma paragem e a segunda meditação.

Uma igreja antiga, sem culto e virada para o mar. Já não tem teto, mas as suas paredes estão carregadas de histórias dos Cristãos que ali iam rezar, ali iam pagar as suas promessas e ali ocorriam as mesmas cerimónias litúrgicas que ocorrem nas demais igrejas.

Paramos e sentamo-nos nos degraus ainda existentes e gastos.

Os irmãos sem bordão que, entretanto, já foram levar os colchões e sacos cama onde iremos pernoitar, aparecem ali, trazendo água para os irmãos que queiram. Todos nós trazemos duas ou três pequenas garrafas de água deste a primeira hora. Já aqui ou ali foi-nos dito que quem precisasse podia levar água. Há sempre um ou outro que, entretanto, nas paragens bebeu tudo e não se apercebeu desse facto. Se estes irmãos não tivessem aparecido, seguramente que algum irmão tinha para partilhar, como é hábito.

Aproveito para me encostar à parede, tirar as botas e as meias, para arejar um pouco os pés. Vejo que outros irmãos já fizeram o mesmo. O tempo está bom e vem um cheiro agradável a maresia às nossas narinas. Fechando os olhos até parece que estamos noutro sítio que não aquele. Com os pés já mais secos e frescos, viro as meias pelo avesso e volto a calça-las assim como as botas.

Levanto-me e, também eu, vou fazer uma necessidade tal como os demais. Aproveito para falar com alguns irmãos aleatoriamente, ou seja, sem escolher por isto ou aquilo, apenas para falar e saber como está a correr a romaria, se tem dores, entre outras coisas. Falo também novamente com o irmão contra-mestre. Desta feita até foi ele que veio ter comigo.

Olho para o livrinho dos tempos e para o relógio. Está na hora da meditação. Vou ter com o irmão Padre, que, entretanto, estava a confraternizar com alguns dos irmãos que vieram de fora e mais alguns e peço-lhe para fazer a meditação.

1ª meditação do dia

Cântico de inicio

 Como sol que se levanta

Com o sol que se levanta, nossa voz, Senhor, se eleva, para que na vossa graça, amanheça novo dia.

Moderai a nossa língua, a mentira não nos manche, nem o erro, nem palavras, de ostentação e

discórdia.

Seja puro em nosso peito, o coração que nos destes, e jamais a nossa carne

Se torne escrava do mal.

E quando a tarde descer, e quando a noite

chegar, cantemos a vossa glória,

Esquecendo-nos do mundo.

Glória a Vós, ó Pai eterno, glória a Vós, Senhor Jesus, no Espírito divino,

Pelos séculos dos séculos


O Vídeo sendo grande, poderá ver no facebook do rancho na mesma hora, ou seja, precisamente agora.


1º DIA DE ROMARIA – VISÃO DO IRMÃO MESTRE – PRIMEIRO TERÇO

 


03:15 da madrugada é a hora que marca o relógio da igreja.

A noite ainda é uma criança e já se ouvem passos nas ruas que circundam o Santuário de Nossa Senhora da Conceição. O céu está estrelado e o tempo está frio e seco. Alguns carros vão chegando e parando. São os romeiros que vão chegando para partirem para um retiro peculiar. Um retiro em que as quatro paredes, são os caminhos desta ilha que irão percorrer, com Fé e Esperança.

O irmão Padre já tem a igreja aberta e todas as luzes estão acesas, parecendo o Sol do meio dia, no meio da noite profunda.

Vêm-me à ideia a passagem bíblica das virgens que tomando as suas candeias foram ao encontro do noivo e, tal como as prudentes, trazemos azeite nas almotolias, para que possamos almejar a entrada na sala de núpcias.

Lanço a salva: “Seja para sempre Louvada a Sagrada Vida, Paixão, Morte e Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo”

De repente, no meio das conversas normais entre irmãos, sorrisos no brilho dos olhos, faz-se um silêncio...muito fecundo, e respondem: “Seja para Sempre Louvada, com Sua e Nossa Mãe Maria Santíssima”

Entro para a igreja pelo lado esquerdo e vou em direção as Sacrário. Alguns irmãos estão a colocar os seus sacos cama no local apropriado, para que os piedosos irmãos sem bordão, os levem, para onde iremos pernoitar. Já se encontram sentados alguns familiares dos que irão sair, aguardando a Celebração Litúrgica.

Ajoelho-me com devoção junto ao sacrário. Ele está ali, creio nisso. Durante alguns minutos converso com Ele. Entre outras coisas mais íntimas e pessoais, peço-Lhe pela romaria e pelos meus irmãos, para que tudo corra bem e no final possam dizer: “Até para o ano irmão-mestre!”.

Desloco-me à sacristia para ir buscar a Cruz, Aquela que o menino da cruz irá transportar. Coloco-a em cima da mesa do Altar, juntamente com os lenços dos irmãos que irão sair pela primeira vez.

Algum nervosismo apoderar-se de mim. Apesar do tempo neste cargo, todos os anos é a mesma coisa. Há quem diga que é bom, dizem que é sinal de estar alerta e não deixar o marasmo vencer...não sei.

Desço a igreja em direção à rua. Como, entretanto, já chegaram todos os irmãos, vou distribuindo o guião das meditações diárias, para que cada um o guarde para as alturas devidas.

Troco algumas palavras e conselhos com o meu piedoso irmão Contra-mestre. Mais velho e mais experiente na vida, tem-me ajudando muito. De certa forma, temo-nos ajudado mutuamente, dentro e fora da romaria.

03:55.

Depois de nova salva e resposta, formamos o rancho em duas alas.

Começamos com o cântico à Padroeira e depois o cântico da entrada. Vamos entrando na igreja pelas portas laterais, seguindo a letra do cântico. Todos os ali presentes se levantam. As vozes ecoam dentro daquele espaço, fazendo alguma ressonância agradável aos homens e a Deus, assim cremos.

Como todas as missas, teve as suas leituras, homilia e demais situações. As leituras até parece que foram escolhidas para nós, romeiros e pecadores confessos. A homilia alimentou as nossas almas e aqueceu os nossos corações.

Na partida os irmãos foram pegando no seu bordão, que aos pés da mesa do altar colocaram no início… e única vez na romaria, beijaram a cruz, para saírem para o mundo, para com o exemplo serem evangelizadores... Aos novos, foi-lhes também colocado o lenço, símbolo do romeiro.

05:00.

Com o rancho formado, profiro estas belas e profundas palavras” - Bendito foi o dia e a hora, em que o Anjo São Gabriel desceu dos Céus à terra, anunciado estas palavras: Avé Maria...”

 

Ainda noite, a Avé Maria começa a ser ouvida por todos os que ali estão, mas também pelos Anjos, Santos e Deus Nosso Senhor.

Em passos largos, começamos a romaria. Terço do lado de fora e bordão do lado de dentro. No meio, a Sagrada Família caminha connosco e há frente Jesus na cruz ao peito de uma criança.

 

Caminhamos pelas ruas, continuando o terço cantado até há 1ª paragem, na igreja de Nossa Senhora da Guia. Um bom prenuncio para todos. Como já há algum tempo, ali está o colaborador do Museu de Angra, com as portas abertas de par em par e as luzes acesas. Depois das orações, entramos e “ajoelhai Pecadores, com os joelhos no chão...”

Como orador nesta 1ª paragem, gosto de começar com as palavras que um irmãezinho orador há alguns anos atrás começava:

 

“ - Bom dia Pai, bom dia Mãe.”

 

Realmente, por muitas e belas palavras que possamos proferir, estas simples palavras sentidas no coração do orador e nos que estão a ouvir, têm uma profundidade abismal, que possivelmente alegra e rejubila nos Céus.

Continuo nas orações e pedidos, sendo replicados pelos restantes irmãos.

Saímos dali em direção há ermida de Santo Cristo, mesmo ali ao lado. A Lua lá no alto ilumina o nosso caminho até lá.

A ermida dedicada a Santo Cristo é pequena contrastando com outros locais de culto com o mesmo orago, no entanto só Ele sabe o tamanho da nossa devoção, só Ele Vê e Sente o que vai na nossa alma.

Saindo dali, subimos a Rua do Desterro em direção à ermida de Nossa Senhora com o mesmo nome. Na rua apertada, o cântico alternado do Avé Maria com o Santa Maria, para além de ser dolente, começa aos poucos a aquecer as paredes frias das casas que nos circundam.

Aproveito nesta subida para ir falar com os irmãos oradores, no intuito de lhe destinar os diversos locais de culto onde iram orar, até há primeira paragem técnica. Todos eles aceitam.

Ao longe já vêm as luzes da ermida acesas e há porta um dos elementos que, quase religiosamente, nos recebe ano após ano com muito gosto. Paramos há porta e o orador, começa as suas orações de entrada. Lá dentro, tem mais alguns elementos da comissão fabriqueira daquela ermida. Entretanto chegam alguns familiares dos romeiros que, de carro vieram até aqui para, de certa forma se despedirem.

Em duas alas entramos, passando os dedos na água benta e benzendo-nos um a um, vamos para os nossos lugares, ajoelhando nos bancos. O orador, igualmente de joelhos começa as orações, agradecimentos, pedidos, aos quais vamos respondendo, quando para tal o é, terminando com o cântico de saída. Sem nos apercebermos, algum tempo já passou, mas que belo e sublime tempo ali passado, falando com Cristo e pedido-Lhe pelos Homens.

Saímos em direção à Ermida de São João de Deus, que fica logo ao lado de baixo do Império do Divino Espírito Santo daquele lugar. No caminho e ouvindo o nosso cântico, alguns cães ladram há nossa passagem. Alguns moradores vêm à janela ver o que se passa. Reparo que um deles, veio de barreta e ao ver-nos passar tirou-a, em sinal de respeito, não tanto por nós pecadores, mas sim pelo Jesus crucificado que vai na frente. Ainda faltando algum tempo, já se ouve o repicar tímido do sino ali existente. Tem que ser poucas vezes, porque a esta hora a maioria das pessoas estão a dormir.

Ali chegados, novo orador faz os cânticos de entrada e depois de entramos as orações previstas no guião. Ermida pequena, mas que cabe um mundo inteiro. Há saída o irmão Procurador das almas, tal como em todas as demais igrejas, vai ao encontro dos irmãos e irmãs que ali estão, para saber se querem que rezemos por eles ou por alguma intenção particular, dando também a pagela do rancho.

Continuamos a caminhada até à ermida de Nossa Senhora de Fátima. Ali, duas ou três irmãs, aguardam-nos, Ano após ano, aqueles minutos que ali estamos em oração com elas, dizem ser um balsamo para as suas almas. Achamos ser exagerado, no entanto, só Deus sabe o que elas possam querer dizer com essas palavras e só temos que aceitar.

Dali, cantando o Avé Maria, vamos em direção há primeira paragem técnica. Dizemos paragem técnica, como podíamos dizer outra coisa. É a primeira de muitas ao longo do dia e dos dias da romaria. Serve, não só para um golo de água, como para molhar os lábios, um cigarro ou mesmo para uma necessidade fisiológica, a qual nenhum irmão escapa. Serve igualmente para parar um pouco e descanso das pernas ou para virar as meias ao contrário. Nesta paragem também é quando os irmãos confraternizam um pouco mais, para além de outros momentos. Perto do Clube Musical Angrense, pela primeira vez toco a cabrinha, como chamamos ao sino que usamos, para as paragens. Os irmãos já sabem que chegou o momento de paragem.

Aproveito para trocar algumas impressões com o meu piedoso irmão contra-mestre, assim como ver no livrinho de tempos (criado logo na I romaria), para ver se estamos ligeiramente atrasados ou adiantados. Estamos num bom ritmo. Aproveito para trocar algumas palavras com os que saíram pela 1ª vez. Bem sei que ainda é muito cedo para dizerem alguma coisa, no entanto, também me compete zelar por eles e saber se estão bem. Lá para o 3º ou 4º dia, já será mais fácil dizerem alguma coisa.

Olho para o relógio (sim, tenho que o usar, assim como o telemóvel) e vejo que está na hora de recomeçar.

Toco o cabrinha e lanço a salva. Um a um levanta-se de onde está e vão formando o rancho. Que bela imagem ver o rancho a formar em duas alas.

Vem-me há ideia quando Jesus mandou os primeiros discípulos dois a dois…

 

Bendito foi o dia e a hora, em que o Anjo São Gabriel desceu dos Céus à terra, anunciado estas palavras: Avé Maria...” e recomeça o cântico do Avé Maria com a saída dali até há capela de São Rafael.

Chegamos ali e a noite vai despertando timidamente. O orador destinado começa. As portas estão entreabertas, basta um ligeiro empurrar e entramos, cada ala pelo seu lado. Entre os cânticos e orações, reparo que o Frei responsável por aquele local está numa outra porta e vai-nos acompanhado nas orações e cânticos. Aquando da saída faço um ligeiro gesto de agradecimento, ao qual ele retribui. Não são precisas muitas palavras para agradecer o facto de nos terem aberto as suas portas aquela hora da madrugada, assim como na ermida do Sagrado Coração de Jesus, logo ali ao lado. Nem precisamos de sair à rua para irmos. Uma porta que separa a parte dos homens das mulheres está aberta para nós. Poupamos alguns passos e alguns minutos que poderemos precisar mais tarde, seja para algum imprevisto ou para o alongar da meditação.

Nesta ermida, tem quase sempre algumas irmãs consagradas e algumas colaboradoras há nossa espera. Também esta ermida é agradável á vista, com algumas imagens sacras.

Dali seguimos para a igreja de Nossa Senhora da Penha, na freguesia de Posto Santo. Durante este trajeto e por ser longo, quando o Santa Maria termina lanço a salva, e peço que até essa igreja, sejam rezados dois terços, sendo um pelas intenções de todos os benfeitores do rancho e outro por alguma intenção particular. Todos aqueles que já nos apoiaram até há saída, bem como aqueles que nos irão apoiar até ao fim da romaria, são benfeitores e, seja por um pedido de oração, uma garrafa de água, uma partilha da refeição ou outra situação, sinto que o primeiro terço deve ser por eles.

Rezando os terços e com os olhos postos na ponta do lenço do irmão que vai há frente, até a Ladeira da Pateira passa despercebida aos nossos olhos. A terminar o segundo terço já estamos quase a chegar á entrada para a freguesia.

A meio da descida, lanço novamente a salva, para recomeçarmos a cantar o Avé Maria.

Chegamos à igreja, subimos as escadas ali existentes e, mais uma vez o orador faz o seu papel muito bem, fora e dentro.

Saindo, rumamos em direção ao pequeno almoço que todos os anos nos é oferecido pela Senhora Carmelo e família, na casa de pasto ali existente. Depois de quase 5 ou 6 horas sem comer e apesar de estarmos numa altura de jejum e abstinência, para quem caminha, sabe bem comer um papo seco fresco e estaladiço, seja com doce, queijo ou manteiga, acompanhado de um galão quentinho.

No fim da refeição e depois de nos aprontarmos novamente e formamos o rancho, com a presença desta tão simpática e afável senhora, fazemos os pedidos de agradecimento. Pelos seus, pelo seu negócio e família, nunca esquecendo o seu falecido marido e demais familiares. Pedimos também que Deus recompense a sua generosidade. Depois, para continuarmos a romaria cantamos um cântico que o nosso piedoso irmão sem bordão Luís Castro, tem o tom apropriado:

Acabada a refeição, Deus na terra destinou, foi este o divino pão, que a todos alimentou (…)

Depois de mais um convívio entre todos os irmãos e com o estomago mais aconchegado, vamos dali para a Ermida de Nossa Senhora da Penha de França, para a 1ª meditação do dia.

Durante este trajeto e depois de algumas Avé Marias onde havia casas, peço novamente mais 2 terços por intenções. Assim, não só não cansam tanto a voz como não apanham frio nas cordas vocais, já que a manhã está fria e não parece que passe. Em silencio cada um dos irmãos vais rezando para si o terço. Lá no fundo, após alguns terços, alguma coisa começa a ecoar dentro de nós.

Enquanto vão rezando, volto a ver o livrinho dos tempos e comparo com o relógio. Estando cá atrás, tenho que fazer algumas chamadas, para quem nos irá dar passagem no seu prédio, ganhando com isso alguns passos e tempo assim como às pessoas que irão abrir a ermida.

Chegado à entrada dessa ermida, subimos os 72 degraus que nos separam da ermida em si. Chegados lá acima, o orador começa. Após isso, mais uma paragem técnica seguindo-se da meditação já prevista e pensada pelo irmão Padre Dinis. Entretanto dá para os irmãos conversarem e ver o que a vista de ali alcança. O tempo, entretanto, mudou. Já não está tanto frio e o sol começa a querer dar um ar da sua graça. Alguns irmãos tiram a sua cevadeira para descansarem as costas, outros bebem um pouco de água e outros ainda fecham um pouco os olhos.

15. Quarta-feira depois do II domingo da Quaresma: A Paixão de Cristo causou nossa salvação a modo de satisfação


 Quarta-feira da II Semana da Quaresma

«Ele é propiciação pelos nossos pecados; e não somente pelos nossos, mas

também pelos de todo o mundo» (1 Jo 2, 2)


I. Propriamente falando, satisfaz pela ofensa quem, ao ofendido, oferece

algo que este ame tanto ou mais do que odeia a ofensa. Ora, Cristo,

sofrendo por obediência e caridade, ofereceu a Deus um bem maior do que

o exigido pela recompensa da ofensa total do gênero humano. Assim,

primeiro, pela grandeza da caridade, pela qual sofria. Segundo, pela

dignidade de sua vida, que oferecia em satisfação, que era a vida de Deus e

do homem. Terceiro, por causa da generalidade da Paixão e da grandeza

da dor assumida. Por onde, a Paixão de Cristo foi uma satisfação não só

suficiente, mas superabundante pelos pecados do gênero humano, segundo

aquilo do Evangelho: «Ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente

pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo» (Mt 20, 19).

Em verdade, quem peca é que deve dar satisfação; porém, a cabeça e os

membros constituem uma como pessoa mística. Por isso, a satisfação de

Cristo pertence a todos os fiéis, como aos seus membros. Assim, também

quando dois homens estão unidos pela caridade, um pode satisfazer por

outro.

III, q. XLVIII, a. II

II. Ainda que Cristo tenha, com sua morte, satisfeito suficientemente pelo

pecado original, não é inconveniente que as penalidades conseqüentes

deste pecado permaneçam ainda naqueles que participam da redenção de

Cristo. Com efeito, que a pena continue mesmo após a abolição da culpa, é

algo em que se encontra harmonia e utilidade:

1. Para que exista conformidade entre os fiéis e Cristo, como entre os

membros e a cabeça. Ora, assim como Cristo suportou muitos sofrimentos

até chegar a glória da imortalidade, assim convinha que seus fiéis passassem

por sofrimentos até chegarem a imortalidade; trazem em si mesmos as

marcas da Paixão de Cristo, por assim dizer, para obter uma glória

semelhante a sua.

2. Pois, se os homens que vêm ao Cristo recebessem prontamente a

imortalidade e a impassibilidade, muitos homens se aproximariam do

Cristo mais por causa destes benefícios corporais que pelos bens

espirituais, o que vai contra a intenção de Cristo, que veio ao mundo para

levar os homens, do amor das coisas corporais, ao amor das espirituais.

3. Enfim, se os que se aproximam de Cristo se tornassem,

instantaneamente, impassíveis e imortais, isto, de certo modo, os

compeliria a abraçar a fé de Cristo. O que diminuiria o mérito da fé.

Contr. 4, 55.

(P. D. Mézard, O. P., Meditationes ex Operibus S. Thomae.)