O Vídeo sendo grande, poderá ver no facebook do rancho na mesma hora, ou seja, precisamente agora.
quarta-feira, 3 de março de 2021
1º DIA DE ROMARIA – VISÃO DO IRMÃO MESTRE – SEGUNDO TERÇO
Toco a cabrinha,
para que os irmãos se juntem para a meditação. Cada um tira o seu guião das
meditações, para irem seguindo o raciocínio do irmão Padre e tirarem duvidas
quando as tiverem. A esta partilha da meditação também estão presentes as
senhoras que se dignaram a abrir as portas, assim como a trazer a imagem. Deus
Nosso Senhor as recompense!
Após a
meditação, descemos os 72 degraus, mais fáceis agora e formamos o rancho na
entrada.
Depois desta
partilha, balsamo para a alma, vamos em direção à Casa de São Francisco da
Congregação das Irmãs Franciscanas Hospitaleiras da Imaculada Conceição, para o
almoço.
Desde a I
romaria que elas, com muito gosto e devoção a Cristo, que nos abrem as suas
portas, não só para orarmos na sua capela como também para o almoço. São poucos
os homens que ali entram e nós temos a graça de Deus de nos receberem. Na
capela algumas irmãs acompanham-nos nas orações e cânticos.
Findado essa
parte saímos, e fora da capela, pousamos a cevadeira e o xaile, ficando apenas
com o lenço e os terços. Alguns irmãos, poe ao pescoço das irmãs que ali estão
um dos terços que trazem. Elas agradecem.
O irmão Padre
profere a oração da partilha da refeição e um a um, vão entrando no refeitório
e servindo-se da sopa, pão e segundo. Nas mesas já têm jarros de água e fruta
em abundância.
Depois de me
servir (sou o último) uma das irmãs diz que quem quiser pode repetir.
Lembro-me do
primeiro ano que fui falar com a irmã responsável e lhe ter pedido que para nós
bastava uma sopa, pão e água, ao que ela me respondeu:
“– Se fosse
Jesus a vir aqui, acha que só lhe íamos dar isso?”
Depois desta
resposta, e dai por diante, nunca mais me atrevi a fazer esse pedido, apenas
lhe digo o número de irmãos atempadamente.
Findada a
refeição, aparelhamo-nos e formamos o rancho na saída da casa. Um ou outro
irmão já não se lembra que ofereceu o seu terço e uma ou outra irmã, traz e
pergunta de quem é. Entre irmãos que já se conhecem há pelos menos um ano, vêm
ao de cima as piadas sem maledicência sobre o esquecimento. Também faz parte da
romaria isso.
Fazemos os
agradecimentos devidos, pedimos pela sua congregação e pelo aumento de
vocações, entre outros pedidos, terminando com o cântico do piedoso irmão Luís
Castro.
As irmãs
agradecem e acenam em sinal de alegria e nós respondemos “– Até para o ano se
Deus quiser!”
Dali seguimos em
direção à igreja de São Carlos. Como o caminho não tem muitas casas, opto por
pedir para rezarem dois terços por intenções.
Já perto da
igreja, lanço a salva para que o rancho recomece a cantar o Avé Maria.
Sabendo que um
dos irmãos reside ali, na hora de almoço pedi-lhe que fosse o orador, ao que
ele agradeceu e disse que sim, que o faria com muito gosto.
Não sei como
serão os outros ranchos, mas se algum dos irmãos reside na paroquia onde vamos
passar e entrar na sua igreja, atempadamente pergunto se não quer ser o orador
nela. Mesmo que a voz, cântico ou oração não saia como ele esperava, não me
preocupo. Nem eu nem o meu contra-mestre, porque sabemos que ele fez o melhor
que podia na sua paroquia e isso, temos a certeza que agrada a Deus.
Naquela igreja,
ao contrário das demais da ilha, se não me engano, o Cristo ali existente é
Ressuscitado e não Crucificado, se bem que com a iluminação ali existente,
vemos os dois em simultâneo. O Cristo Ressuscitado “fisicamente” e o
Crucificado como uma sombra.
Dali seguimos
para a igreja de Nossa Senhora de Belém, na freguesia de Terra-Chã, passando
pela ermida de Jesus Maria e José, particular por sinal.
Mais uma vez
revejo os tempos e mais uma chamada telefónica necessária.
Chegados à
igreja de Nossa Senhora de Belém, entramos, rezamos e cantamos o que o orador
previsto escolheu. Vejo lá ao fundo o pároco daquela freguesia e connosco estão
algumas pessoas. As que nos abriram as portas e mais algumas que no percurso
final nos viram e também quiseram orar connosco. O orador, também ciente disso,
também pede por eles e suas famílias.
Saímos cantando
até pararmos numa zona descampada entre esta freguesia e a freguesia de São
Mateus da Calheta. Ali fazemos mais uma paragem prevista para o que for
preciso. Alguns irmãos aproveitam para se esticarem um pouco em cima da
calçada. Outros fumam um cigarro. Apesar de ainda ser o primeiro dia, aproveito
para falar com os novos sobre a romaria e como estão fisicamente. Aproveito
novamente para trocar algumas palavras com o irmão contra-mestre, já que como
vai na parte do Avé Maria, nem sempre dá para falar fazendo caminho.
Depois desta
pausa merecida a cabrinha toca, para formar rancho. Por vezes acontece neste
momento, um ou outro irmão lembrar-se de ir fazer uma necessidade, quando teve
algum tempo para isso, mas, faz parte.
Formado o rancho
e indo em silêncio rezando os terços que possam estar em atraso, partimos em
direção à Ermida de São Francisco das Almas, no lugar do Cantinho, na freguesia
de São Mateus da Calheta. Também ali, o orador é um residente no local e como
tal é ele que fará as orações, cânticos e pedidos.
A ermida está
aberta, como os demais locais até este momento, graças a Deus. Lá dentro duas
ou três pessoas acompanham-nos. Estando atrás, faço um gesto de agradecimento a
essas pessoas e elas sorriem.
Saindo,
continuamos em direção à igreja paroquial da freguesia. Um caminho ainda longo
e alguns km nos separam.
Tendo já falado
com o irmão Procurador das Almas, sobre os pedidos que fomos recebendo até
então, aproveito este caminho para pedir aos irmãos que, naquele trajeto iremos
rezar alguns dos pedidos que o rancho recebeu. Muitos pedidos por doenças,
outros pelos filhos andarem por caminhos errantes, outros ainda para obterem
trabalho. Mas também há pedidos de agradecimentos. Pela cura de alguém, pelos
estudos terem corrido bem, por terem arranjado emprego, entre outros.
Dali até há
referida igreja, vou rezando e os restantes irmãos acompanhando. Contas atrás
de contas, vamos pagando os pedidos que nos foram feitos, alias, para nós não é
sacrifício, mas sim o nosso dever e a nossa salvação….rezar!
Na igreja
paroquial, mais um irmão que ali reside é o orador. Também ali estão algumas
pessoas aguardando por nós, assim como o pároco.
Calmamente e
pausadamente o irmão executa os cânticos, as orações e os pedidos.
Olho para o
relógio. Sem nos darmos conta já passaram cerca de 10 minutos, 10 belos minutos
com Ele.
Depois de o
dever ali cumprido, seguimos em direção há igreja velha, para mais uma paragem
e a segunda meditação.
Uma igreja
antiga, sem culto e virada para o mar. Já não tem teto, mas as suas paredes
estão carregadas de histórias dos Cristãos que ali iam rezar, ali iam pagar as
suas promessas e ali ocorriam as mesmas cerimónias litúrgicas que ocorrem nas
demais igrejas.
Paramos e
sentamo-nos nos degraus ainda existentes e gastos.
Os irmãos sem
bordão que, entretanto, já foram levar os colchões e sacos cama onde iremos
pernoitar, aparecem ali, trazendo água para os irmãos que queiram. Todos nós
trazemos duas ou três pequenas garrafas de água deste a primeira hora. Já aqui
ou ali foi-nos dito que quem precisasse podia levar água. Há sempre um ou outro
que, entretanto, nas paragens bebeu tudo e não se apercebeu desse facto. Se
estes irmãos não tivessem aparecido, seguramente que algum irmão tinha para
partilhar, como é hábito.
Aproveito para
me encostar à parede, tirar as botas e as meias, para arejar um pouco os pés.
Vejo que outros irmãos já fizeram o mesmo. O tempo está bom e vem um cheiro
agradável a maresia às nossas narinas. Fechando os olhos até parece que estamos
noutro sítio que não aquele. Com os pés já mais secos e frescos, viro as meias
pelo avesso e volto a calça-las assim como as botas.
Levanto-me e,
também eu, vou fazer uma necessidade tal como os demais. Aproveito para falar
com alguns irmãos aleatoriamente, ou seja, sem escolher por isto ou aquilo,
apenas para falar e saber como está a correr a romaria, se tem dores, entre
outras coisas. Falo também novamente com o irmão contra-mestre. Desta feita até
foi ele que veio ter comigo.
Olho para o
livrinho dos tempos e para o relógio. Está na hora da meditação. Vou ter com o
irmão Padre, que, entretanto, estava a confraternizar com alguns dos irmãos que
vieram de fora e mais alguns e peço-lhe para fazer a meditação.
1ª meditação do dia
Cântico de inicio
Como sol que se levanta
Com o sol que se levanta, nossa voz, Senhor, se eleva, para que na vossa graça, amanheça novo dia.
Moderai a nossa língua, a mentira não nos manche, nem o erro, nem palavras, de ostentação e
discórdia.
Seja puro em nosso peito, o coração que nos destes, e jamais a nossa carne
Se torne escrava do mal.
E quando a tarde descer, e quando a noite
chegar, cantemos a vossa glória,
Esquecendo-nos do mundo.
Glória a Vós, ó Pai eterno, glória a Vós, Senhor Jesus, no Espírito divino,
Pelos séculos dos séculos
O Vídeo sendo grande, poderá ver no facebook do rancho na mesma hora, ou seja, precisamente agora.
1º DIA DE ROMARIA – VISÃO DO IRMÃO MESTRE – PRIMEIRO TERÇO
03:15 da
madrugada é a hora que marca o relógio da igreja.
A noite ainda é
uma criança e já se ouvem passos nas ruas que circundam o Santuário de Nossa
Senhora da Conceição. O céu está estrelado e o tempo está frio e seco. Alguns
carros vão chegando e parando. São os romeiros que vão chegando para partirem
para um retiro peculiar. Um retiro em que as quatro paredes, são os caminhos
desta ilha que irão percorrer, com Fé e Esperança.
O irmão Padre já
tem a igreja aberta e todas as luzes estão acesas, parecendo o Sol do meio dia,
no meio da noite profunda.
Vêm-me à ideia a
passagem bíblica das virgens que tomando as suas candeias foram ao encontro do
noivo e, tal como as prudentes, trazemos azeite nas almotolias, para que
possamos almejar a entrada na sala de núpcias.
Lanço a salva: “Seja
para sempre Louvada a Sagrada Vida, Paixão, Morte e Ressurreição de Nosso
Senhor Jesus Cristo”
De repente, no
meio das conversas normais entre irmãos, sorrisos no brilho dos olhos, faz-se
um silêncio...muito fecundo, e respondem: “Seja para Sempre Louvada, com Sua
e Nossa Mãe Maria Santíssima”
Entro para a
igreja pelo lado esquerdo e vou em direção as Sacrário. Alguns irmãos estão a
colocar os seus sacos cama no local apropriado, para que os piedosos irmãos sem
bordão, os levem, para onde iremos pernoitar. Já se encontram sentados alguns
familiares dos que irão sair, aguardando a Celebração Litúrgica.
Ajoelho-me com
devoção junto ao sacrário. Ele está ali, creio nisso. Durante alguns minutos
converso com Ele. Entre outras coisas mais íntimas e pessoais, peço-Lhe pela
romaria e pelos meus irmãos, para que tudo corra bem e no final possam dizer: “Até
para o ano irmão-mestre!”.
Desloco-me à
sacristia para ir buscar a Cruz, Aquela que o menino da cruz irá transportar.
Coloco-a em cima da mesa do Altar, juntamente com os lenços dos irmãos que irão
sair pela primeira vez.
Algum nervosismo
apoderar-se de mim. Apesar do tempo neste cargo, todos os anos é a mesma coisa.
Há quem diga que é bom, dizem que é sinal de estar alerta e não deixar o
marasmo vencer...não sei.
Desço a igreja
em direção à rua. Como, entretanto, já chegaram todos os irmãos, vou
distribuindo o guião das meditações diárias, para que cada um o guarde para as
alturas devidas.
Troco algumas
palavras e conselhos com o meu piedoso irmão Contra-mestre. Mais velho e mais
experiente na vida, tem-me ajudando muito. De certa forma, temo-nos ajudado
mutuamente, dentro e fora da romaria.
03:55.
Depois de nova salva
e resposta, formamos o rancho em duas alas.
Começamos com o
cântico à Padroeira e depois o cântico da entrada. Vamos entrando na igreja
pelas portas laterais, seguindo a letra do cântico. Todos os ali presentes se
levantam. As vozes ecoam dentro daquele espaço, fazendo alguma ressonância
agradável aos homens e a Deus, assim cremos.
Como todas as
missas, teve as suas leituras, homilia e demais situações. As leituras até
parece que foram escolhidas para nós, romeiros e pecadores confessos. A homilia
alimentou as nossas almas e aqueceu os nossos corações.
Na partida os
irmãos foram pegando no seu bordão, que aos pés da mesa do altar colocaram no
início… e única vez na romaria, beijaram a cruz, para saírem para o mundo, para
com o exemplo serem evangelizadores... Aos novos, foi-lhes também colocado o
lenço, símbolo do romeiro.
05:00.
Com o rancho
formado, profiro estas belas e profundas palavras” - Bendito
foi o dia e a hora, em que o Anjo São Gabriel desceu dos Céus à terra,
anunciado estas palavras: Avé Maria...”
Ainda noite, a Avé
Maria começa a ser ouvida por todos os que ali estão, mas também pelos
Anjos, Santos e Deus Nosso Senhor.
Em passos
largos, começamos a romaria. Terço do lado de fora e bordão do lado de dentro.
No meio, a Sagrada Família caminha connosco e há frente Jesus na cruz ao peito
de uma criança.
Caminhamos pelas
ruas, continuando o terço cantado até há 1ª paragem, na igreja de Nossa Senhora
da Guia. Um bom prenuncio para todos. Como já há algum tempo, ali está o
colaborador do Museu de Angra, com as portas abertas de par em par e as luzes
acesas. Depois das orações, entramos e “ajoelhai Pecadores, com os
joelhos no chão...”
Como orador
nesta 1ª paragem, gosto de começar com as palavras que um irmãezinho
orador há alguns anos atrás começava:
“ - Bom dia Pai,
bom dia Mãe.”
Realmente, por
muitas e belas palavras que possamos proferir, estas simples palavras sentidas
no coração do orador e nos que estão a ouvir, têm uma profundidade abismal, que
possivelmente alegra e rejubila nos Céus.
Continuo nas
orações e pedidos, sendo replicados pelos restantes irmãos.
Saímos dali em
direção há ermida de Santo Cristo, mesmo ali ao lado. A Lua lá no alto ilumina
o nosso caminho até lá.
A ermida
dedicada a Santo Cristo é pequena contrastando com outros locais de culto com o
mesmo orago, no entanto só Ele sabe o tamanho da nossa devoção, só Ele Vê e
Sente o que vai na nossa alma.
Saindo dali,
subimos a Rua do Desterro em direção à ermida de Nossa Senhora com o mesmo
nome. Na rua apertada, o cântico alternado do Avé Maria com o Santa Maria, para
além de ser dolente, começa aos poucos a aquecer as paredes frias das casas que
nos circundam.
Aproveito nesta
subida para ir falar com os irmãos oradores, no intuito de lhe destinar os
diversos locais de culto onde iram orar, até há primeira paragem técnica. Todos
eles aceitam.
Ao longe já vêm
as luzes da ermida acesas e há porta um dos elementos que, quase
religiosamente, nos recebe ano após ano com muito gosto. Paramos há porta e o
orador, começa as suas orações de entrada. Lá dentro, tem mais alguns elementos
da comissão fabriqueira daquela ermida. Entretanto chegam alguns familiares dos
romeiros que, de carro vieram até aqui para, de certa forma se despedirem.
Em duas alas
entramos, passando os dedos na água benta e benzendo-nos um a um, vamos para os
nossos lugares, ajoelhando nos bancos. O orador, igualmente de joelhos começa
as orações, agradecimentos, pedidos, aos quais vamos respondendo, quando para
tal o é, terminando com o cântico de saída. Sem nos apercebermos, algum tempo
já passou, mas que belo e sublime tempo ali passado, falando com Cristo e
pedido-Lhe pelos Homens.
Saímos em
direção à Ermida de São João de Deus, que fica logo ao lado de baixo do Império
do Divino Espírito Santo daquele lugar. No caminho e ouvindo o nosso cântico,
alguns cães ladram há nossa passagem. Alguns moradores vêm à janela ver o que
se passa. Reparo que um deles, veio de barreta e ao ver-nos passar tirou-a, em
sinal de respeito, não tanto por nós pecadores, mas sim pelo Jesus crucificado
que vai na frente. Ainda faltando algum tempo, já se ouve o repicar tímido do
sino ali existente. Tem que ser poucas vezes, porque a esta hora a maioria das
pessoas estão a dormir.
Ali chegados,
novo orador faz os cânticos de entrada e depois de entramos as orações
previstas no guião. Ermida pequena, mas que cabe um mundo inteiro. Há saída o
irmão Procurador das almas, tal como em todas as demais igrejas, vai ao
encontro dos irmãos e irmãs que ali estão, para saber se querem que rezemos por
eles ou por alguma intenção particular, dando também a pagela do rancho.
Continuamos a
caminhada até à ermida de Nossa Senhora de Fátima. Ali, duas ou três irmãs,
aguardam-nos, Ano após ano, aqueles minutos que ali estamos em oração com elas,
dizem ser um balsamo para as suas almas. Achamos ser exagerado, no entanto, só
Deus sabe o que elas possam querer dizer com essas palavras e só temos que
aceitar.
Dali, cantando o
Avé Maria, vamos em direção há primeira paragem técnica. Dizemos paragem
técnica, como podíamos dizer outra coisa. É a primeira de muitas ao longo do
dia e dos dias da romaria. Serve, não só para um golo de água, como para molhar
os lábios, um cigarro ou mesmo para uma necessidade fisiológica, a qual nenhum
irmão escapa. Serve igualmente para parar um pouco e descanso das pernas ou para
virar as meias ao contrário. Nesta paragem também é quando os irmãos
confraternizam um pouco mais, para além de outros momentos. Perto do Clube
Musical Angrense, pela primeira vez toco a cabrinha, como chamamos ao sino que
usamos, para as paragens. Os irmãos já sabem que chegou o momento de paragem.
Aproveito para
trocar algumas impressões com o meu piedoso irmão contra-mestre, assim como ver
no livrinho de tempos (criado logo na I romaria), para ver se estamos
ligeiramente atrasados ou adiantados. Estamos num bom ritmo. Aproveito para
trocar algumas palavras com os que saíram pela 1ª vez. Bem sei que ainda é
muito cedo para dizerem alguma coisa, no entanto, também me compete zelar por
eles e saber se estão bem. Lá para o 3º ou 4º dia, já será mais fácil dizerem
alguma coisa.
Olho para o
relógio (sim, tenho que o usar, assim como o telemóvel) e vejo que está na hora
de recomeçar.
Toco o cabrinha
e lanço a salva. Um a um levanta-se de onde está e vão formando o rancho. Que
bela imagem ver o rancho a formar em duas alas.
Vem-me há ideia
quando Jesus mandou os primeiros discípulos dois a dois…
Bendito foi o
dia e a hora, em que o Anjo São Gabriel desceu dos Céus à terra, anunciado
estas palavras:
Avé Maria...” e recomeça o cântico do Avé Maria com a saída dali
até há capela de São Rafael.
Chegamos ali e a
noite vai despertando timidamente. O orador destinado começa. As portas estão
entreabertas, basta um ligeiro empurrar e entramos, cada ala pelo seu lado.
Entre os cânticos e orações, reparo que o Frei responsável por aquele local
está numa outra porta e vai-nos acompanhado nas orações e cânticos. Aquando da
saída faço um ligeiro gesto de agradecimento, ao qual ele retribui. Não são
precisas muitas palavras para agradecer o facto de nos terem aberto as suas portas
aquela hora da madrugada, assim como na ermida do Sagrado Coração de Jesus,
logo ali ao lado. Nem precisamos de sair à rua para irmos. Uma porta que separa
a parte dos homens das mulheres está aberta para nós. Poupamos alguns passos e
alguns minutos que poderemos precisar mais tarde, seja para algum imprevisto ou
para o alongar da meditação.
Nesta ermida,
tem quase sempre algumas irmãs consagradas e algumas colaboradoras há nossa
espera. Também esta ermida é agradável á vista, com algumas imagens sacras.
Dali seguimos
para a igreja de Nossa Senhora da Penha, na freguesia de Posto Santo. Durante
este trajeto e por ser longo, quando o Santa Maria termina lanço a salva, e
peço que até essa igreja, sejam rezados dois terços, sendo um pelas intenções
de todos os benfeitores do rancho e outro por alguma intenção particular. Todos
aqueles que já nos apoiaram até há saída, bem como aqueles que nos irão apoiar
até ao fim da romaria, são benfeitores e, seja por um pedido de oração, uma
garrafa de água, uma partilha da refeição ou outra situação, sinto que o
primeiro terço deve ser por eles.
Rezando os
terços e com os olhos postos na ponta do lenço do irmão que vai há frente, até
a Ladeira da Pateira passa despercebida aos nossos olhos. A terminar o segundo
terço já estamos quase a chegar á entrada para a freguesia.
A meio da
descida, lanço novamente a salva, para recomeçarmos a cantar o Avé Maria.
Chegamos à
igreja, subimos as escadas ali existentes e, mais uma vez o orador faz o seu
papel muito bem, fora e dentro.
Saindo, rumamos
em direção ao pequeno almoço que todos os anos nos é oferecido pela Senhora
Carmelo e família, na casa de pasto ali existente. Depois de quase 5 ou 6 horas
sem comer e apesar de estarmos numa altura de jejum e abstinência, para quem caminha,
sabe bem comer um papo seco fresco e estaladiço, seja com doce, queijo ou
manteiga, acompanhado de um galão quentinho.
No fim da
refeição e depois de nos aprontarmos novamente e formamos o rancho, com a
presença desta tão simpática e afável senhora, fazemos os pedidos de
agradecimento. Pelos seus, pelo seu negócio e família, nunca esquecendo o seu
falecido marido e demais familiares. Pedimos também que Deus recompense a sua
generosidade. Depois, para continuarmos a romaria cantamos um cântico que o
nosso piedoso irmão sem bordão Luís Castro, tem o tom apropriado:
“Acabada a
refeição, Deus na terra destinou, foi este o divino pão, que a todos alimentou
(…)
Depois de mais
um convívio entre todos os irmãos e com o estomago mais aconchegado, vamos dali
para a Ermida de Nossa Senhora da Penha de França, para a 1ª meditação do dia.
Durante este
trajeto e depois de algumas Avé Marias onde havia casas, peço novamente mais 2
terços por intenções. Assim, não só não cansam tanto a voz como não apanham
frio nas cordas vocais, já que a manhã está fria e não parece que passe. Em
silencio cada um dos irmãos vais rezando para si o terço. Lá no fundo, após
alguns terços, alguma coisa começa a ecoar dentro de nós.
Enquanto vão
rezando, volto a ver o livrinho dos tempos e comparo com o relógio. Estando cá
atrás, tenho que fazer algumas chamadas, para quem nos irá dar passagem no seu
prédio, ganhando com isso alguns passos e tempo assim como às pessoas que irão
abrir a ermida.
Chegado à
entrada dessa ermida, subimos os 72 degraus que nos separam da ermida em si.
Chegados lá acima, o orador começa. Após isso, mais uma paragem técnica
seguindo-se da meditação já prevista e pensada pelo irmão Padre Dinis.
Entretanto dá para os irmãos conversarem e ver o que a vista de ali alcança. O
tempo, entretanto, mudou. Já não está tanto frio e o sol começa a querer dar um
ar da sua graça. Alguns irmãos tiram a sua cevadeira para descansarem as
costas, outros bebem um pouco de água e outros ainda fecham um pouco os olhos.
15. Quarta-feira depois do II domingo da Quaresma: A Paixão de Cristo causou nossa salvação a modo de satisfação
Quarta-feira da II Semana da Quaresma
«Ele é propiciação pelos nossos pecados; e não somente pelos nossos, mas
também pelos de todo o mundo» (1 Jo 2, 2)
I. Propriamente falando, satisfaz pela ofensa quem, ao ofendido, oferece
algo que este ame tanto ou mais do que odeia a ofensa. Ora, Cristo,
sofrendo por obediência e caridade, ofereceu a Deus um bem maior do que
o exigido pela recompensa da ofensa total do gênero humano. Assim,
primeiro, pela grandeza da caridade, pela qual sofria. Segundo, pela
dignidade de sua vida, que oferecia em satisfação, que era a vida de Deus e
do homem. Terceiro, por causa da generalidade da Paixão e da grandeza
da dor assumida. Por onde, a Paixão de Cristo foi uma satisfação não só
suficiente, mas superabundante pelos pecados do gênero humano, segundo
aquilo do Evangelho: «Ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente
pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo» (Mt 20, 19).
Em verdade, quem peca é que deve dar satisfação; porém, a cabeça e os
membros constituem uma como pessoa mística. Por isso, a satisfação de
Cristo pertence a todos os fiéis, como aos seus membros. Assim, também
quando dois homens estão unidos pela caridade, um pode satisfazer por
outro.
III, q. XLVIII, a. II
II. Ainda que Cristo tenha, com sua morte, satisfeito suficientemente pelo
pecado original, não é inconveniente que as penalidades conseqüentes
deste pecado permaneçam ainda naqueles que participam da redenção de
Cristo. Com efeito, que a pena continue mesmo após a abolição da culpa, é
algo em que se encontra harmonia e utilidade:
1. Para que exista conformidade entre os fiéis e Cristo, como entre os
membros e a cabeça. Ora, assim como Cristo suportou muitos sofrimentos
até chegar a glória da imortalidade, assim convinha que seus fiéis passassem
por sofrimentos até chegarem a imortalidade; trazem em si mesmos as
marcas da Paixão de Cristo, por assim dizer, para obter uma glória
semelhante a sua.
2. Pois, se os homens que vêm ao Cristo recebessem prontamente a
imortalidade e a impassibilidade, muitos homens se aproximariam do
Cristo mais por causa destes benefícios corporais que pelos bens
espirituais, o que vai contra a intenção de Cristo, que veio ao mundo para
levar os homens, do amor das coisas corporais, ao amor das espirituais.
3. Enfim, se os que se aproximam de Cristo se tornassem,
instantaneamente, impassíveis e imortais, isto, de certo modo, os
compeliria a abraçar a fé de Cristo. O que diminuiria o mérito da fé.
Contr. 4, 55.
(P. D. Mézard, O. P., Meditationes ex Operibus S. Thomae.)
terça-feira, 2 de março de 2021
14. Terça-feira depois do II domingo da Quaresma: A Paixão de Cristo causou a nossa salvação a modo de mérito
Terça-feira da II Semana da Quaresma
I. A Cristo foi dada a graça, não só como a uma pessoa singular, mas
enquanto cabeça da Igreja, de modo que dele redundasse para os membros
dela. Por isso as obras de Cristo estão para o mesmo e para as suas obras,
assim como estão as obras de um homem constituído em graça para com ele
próprio. Ora, é manifesto que quem, constituído em graça, sofre pela
justiça, por isso mesmo merece para si a salvação, segundo a
Escritura: «Bem aventurados os que padecem perseguição por amor da
justiça». Por onde, Cristo, pela sua paixão, mereceu a salvação não
somente para si mas também para todos os seus membros.
Em verdade, Cristo, desde o princípio da sua concepção, mereceu-nos a
salvação eterna. Mas, de nosso lado, certos impedimentos constituíam
um obstáculo a conseguirmos o efeito dos méritos precedentes. Por isso, a
fim de remover esses impedimentos é que Cristo teve de sofrer.
E ainda que a caridade de Cristo não tenha aumentado mais na Paixão
que antes, a Paixão de Cristo teve certo efeito que não tiveram os méritos
precedentes; não por causa de uma caridade maior, mas pelo gênero da
obra, que era concordante com esse efeito.
III, q. XLVIII, a. I
Os membros e a cabeça pertencem à mesma pessoa. Assim, uma vez que
Cristo foi nossa cabeça pela divindade e plenitude de graça, que redunda
para os outros, e que nós somos os seus membros, seu mérito não nos é
estranho, mas redunda em nós pela unidade do corpo místico.
III Dist. 18, a. VI.
II. Deve-se saber que, apesar de Cristo ter, por sua morte, merecido
suficientemente por todo o gênero humano, cada um deve procurar o
remédio para sua própria salvação. A morte do Cristo é como uma causa
universal de salvação, como o pecado do primeiro homem foi como uma
causa universal de danação. Ora, é preciso que a causa universal seja
aplicada a cada um especialmente, para que participe do efeito da causa
universal.
Ora, o efeito do pecado dos nossos primeiros pais chega a cada indivíduo
pela geração carnal; efeito da morte de Cristo, porém, pela regeneração
espiritual, em virtude da qual o homem é, de algum modo, unido e
incorporado em Cristo. E, por isso, convém que cada um seja regenerado
por Cristo, e que receba tudo por que opera a virtude da morte do Cristo.
(P. D. Mézard, O. P., Meditationes ex Operibus S. Thomae.)
segunda-feira, 1 de março de 2021
13. Segunda-feira depois do II domingo da Quaresma: Se foi conveniente que Cristo sofresse da parte dos gentios
Segunda-feira da II Semana da Quaresma
«Entregá-lo-ão aos gentios para ser escarnecido, açoitado e crucificado» (Mt
20, 19)
1. No modo mesmo da paixão de Cristo lhe estava prefigurado o efeito.
Assim, o primeiro efeito da morte de Cristo aproveitou aos judeus,
muitos dos quais foram batizados na ocasião dessa morte, como se lê na
Escritura. Depois, mediante a pregação dos judeus, o efeito da paixão de
Cristo o sentiram os gentios. Por onde, foi conveniente que Cristo
começasse a sofrer da parte dos judeus e em seguida, entregue por estes, a
sua Paixão se consumasse pelas mãos dos gentios.
2. Cristo, para mostrar a abundância da sua caridade, que o levou a
sofrer, pediu do alto da cruz perdão pelos seus perseguidores. Por isso, a
fim de os frutos dessa petição chegarem aos judeus e aos gentios, quis Cristo
sofrer da parte de uns, como de outros.
3. Os sacrifícios figurados da lei antiga não os ofereciam os gentios, mas
os judeus. Ora, a Paixão de Cristo foi a oblação de um sacrifício, pois
Cristo sofreu a morte movido da caridade, por vontade própria. Mas o
sofrimento que lhe infligiram os perseguidores não foi sacrifício, mas
pecado gravíssimo.
4. Como pondera Agostinho, quando os judeus disseram «A nós não nos é
permitido matar ninguém», entendiam significar que não lhes era lícito
matar ninguém por causa da santidade do dia festivo, que já começavam a
celebrar. Ou isso diziam, como ensina Crisóstomo, porque queriam matar a
Jesus não como transgressor da lei, mas como inimigo público, por se ter
feito rei — do que não lhes competia julgar. Ou porque não lhes era lícito
crucificá-lo, como desejavam, mas sim lapidar — o que fizeram com
Estevão. Ou, melhor é dizer, que pelos Romanos, a quem estavam sujeitos,
era-lhes negado o poder de matar.
III, q. XLVII, a. IV
(P. D. Mézard, O. P., Meditationes ex Operibus S. Thomae.)


