terça-feira, 29 de março de 2011

O mundo interior do romeiro

"Há dias atrás, numa das reuniões preparatórias para a romaria (abertas a todos aqueles que queiram participar) um dos irmãos comentou ter lido o livro que dá pelo nome de “O Tesouro escondido” de José Tolentino Mendonça, no qual dividia as pessoas em dois tipos. As pessoas cebolas e as pessoas batata. A fracção de segundo que mediou entre a citação e a argumentação deu para todos os presentes ficarem a pensar na lógica daquela afirmação, aparentemente ilógica. “Realmente, se alguém nos fizesse a pergunta: “- O teu mundo interior é uma cebola ou uma batata?”, ficaríamos com um sorriso amarelo, por acharmos a pergunta descabida, no entanto, a mesma colocar-nos-ia perante uma verdade nua e crua. Tudo será como a interpretarmos, isto é, tudo são cascas de cebola, modos de ver, perceptivas ou outras situações. A visão cristã deverá estar do lado da batata porque defende que, “mesmo escondida por uma crosta ou por um véu, está uma realidade que é substanciosa e vital.” Claro que, mesmo sabendo que a vida é uma batata, nós vivemo-la, muitas vezes, como se fosse uma cebola. Vivemos muito de opiniões, de verdades (que são tudo menos isso), de modas e de aparências. Como uma cebola desfilamos cascas e camadas, sem um centro que nos dê realmente acesso ao pleno sentido da vida.”[1] Posta esta adaptação constato que nas nossas imperfeições humanas, muitas vezes somos levados a sermos mais cebolas do que batatas. Muitos de nós, sem nos apercebermos, vivemos de modas e aparências e, qual cebola, vamos tirando camada após camada até à última camada e não encontramos nada de palpável, nada que dê sentido á vida, principalmente no fim da vida (ou melhor dizendo), no fim desta vida, passagem para a outra, a eterna, se formos dignos. Alguns de nós até poderão ser apenas chalotas, ou seja, com menos algumas camadas, no entanto, por muito poucas que sejam essas camadas, no fim continuamos a não encontrar nada. O ser batata, como o ser cristão, não é fácil mas, não é impossível, basta um pequeno esforço, um pequeno passo seguido de outros mais. Passos que começam com o baptismo seguindo-se do restante caminho cristão, caminho que pode passar pelas romarias quaresmais, peregrinando lado a lado com outros irmãos, “percorrendo nas estradas de hoje o antiquíssimo labirinto penitencial que as catedrais tinham gravado: redescobrindo pelo apagamento a verdade do que se é; experimentando na pobreza o sentido do que se possui; reinventando na errância o endereço das construções sedentárias que nos motivam; medindo no eterno a direcção do provisório.”[2], rezando e cantando o terço quase incessantemente, como quem mastiga e remastiga as ave-marias, qual caroço de azeitona com que vamos brincando na boca durante o dia.[3] Olhando para a sociedade em que vivemos, reparo que cada vez há mais cebolas, chalotas e cebolinho, muitas delas por força do ambiente em que vivem ou por força dos falsos valores que lhes impõem como sendo os verdadeiros. Felizmente que muitas dessas cebolas, aos poucos vão conseguindo separar o trigo do joio [4]e por uma qualquer metamorfose conseguem passar ao estado de batata. Sem ser utópico, que benéfico será para a sociedade, se um dia (desejo que seja em breve) todos nós vivermos apenas com um pequeno véu e por detrás desse véu houver substância vital e verdadeira. Aliás, enquanto a cebola, depois de tiradas todas as camadas chegamos ao nada da sua existência, a batata depois de se lhe tirar o véu, qual noiva no altar, deparamo-nos com a verdade da sua existência, com a substância do seu conteúdo e, ao contrário do nada da cebola depois de tiradas todas as camadas, a batata depois de se lhe tirar parte do véu e ser lançada à terra morre…mas depois dá muito fruto.[5] [1] Adaptação pessoal de um excerto do livro em causa e que poderá ser consultado em http://www.readoz.com/publication/read?i=1033801. [2] Texto na integra em http://tribodejacob.blogspot.com/2010/02/todos-os-labirintos-comecam-e-terminam.html [3] Alusão ao livro de Erri de Luca, que dá pelo titulo de “Caroço de azeitona” [4] Mt 13 24-30 [5] Jo 12 24 "


Artigo publicado no Jornal "A União" de 24 do corrente mês.

1 comentário:

Oswalda disse...

Já tinha lido o artigo na União. Desde o inicio encheu-me de curiosidade tal "estapafurdia" comparação, mas há medida que a leitura atenta ia tendo lugar os meus olhos foram-se abrindo e descobrindo o lugar da batata e da cebola.
Na minha vida tenho sido mais vezes cebola, conclui se bem que a batata me enamora...